quarta-feira, 23 de outubro de 2013

JUDAS

Autor: Judas, irmão de Jesus. Data: entre 64 e 70 d.C. Tema: Defesa da fé cristã. Palavra-chave: guardar. Texto chave - 3,4. ESBOÇO 1 - Saudações - 1-2. 2 - Defesa da fé cristã - 3-4. 3 - Os deturpadores do evangelho - 5-16. 4 - Instruções práticas - 17-23. 4 - Doxologia - 24-25. GUARDADOS EM CRISTO JESUS (v.1). Estar em Cristo, expressão importante na teologia de Paulo, é uma realidade espiritual que expressa nosso vínculo com Jesus e nossa posição espiritual. Trata-se de uma união mística. Estamos ligados a ele como os membros se ligam ao corpo e este à cabeça ou como os ramos se ligam à videira. Judas diz que estamos guardados em Cristo. Ele é o nosso refúgio, nossa fortaleza. Lendo apenas o versículo 1 e o 24, poderíamos pensar que a nossa situação e futuro dependem unicamente de Deus. Se assim fosse, não precisaríamos de tantas palavras de advertência como temos na bíblia. Contudo, o verso 20 muda a conjugação verbal e nos exorta dizendo: "Guardai-vos no amor de Deus" (ou conservai-vos). O autor nos repassa uma grande responsabilidade no sentido de nos mantermos na posição que obtivemos em Cristo mediante a salvação. Nosso estar em Cristo pode ser comparado à condição da família de Noé dentro da arca, a qual representou a salvação daquelas pessoas. O problema central apresentado pela epístola de Judas é o caso daqueles que não guardaram suas posições e se perderam, tornando-se exemplos do juízo divino (v.6). O autor cita como exemplos: o povo de Israel no deserto, os anjos, Sodoma, Gomorra, Caim, Balaão e Coré. Ele fala de experiências coletivas e individuais. Menciona desde pessoas que conheciam bem pouco sobre Deus, passando por aquelas que conheciam muito e chegando a mencionar os anjos, que viam a Deus face a face. O que todos tiveram em comum foi a corrupção e a conseqüente destruição. É impressionante observarmos que o povo de Israel, por sua rebelião e incredulidade, entra para uma lista de exemplos ao lado de Sodoma e Gomorra. Da mesma forma, um profeta ganancioso, Balaão, é listado juntamente com Caim, o irmão homicida. Isso mostra que, seja qual for a nossa posição, devemos ser cuidadosos para não entrarmos nas listas daqueles que não guardaram sua condição original e se corromperam. "Guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa" (Apc.3.11). HERESIA - CAMINHO DA PERDIÇÃO Por quê alguém deixaria sua posição de obediência a Deus para se tornar um infiel? Tal pergunta fica muito difícil de ser respondida se indagarmos a respeito da queda de Satanás. Daí em diante, um dos meios mais utilizados foi a persuasão. Assim, os anjos foram levados, e também Adão e Eva. O infiel vai propagando a infidelidade. Judas estava preocupado com essa prática, pois os hereges se manifestavam dentro da igreja e ameaçavam a firmeza dos irmãos através de doutrinas erradas. A epístola diz que eles "convertem em dissolução a graça de Deus" (v.4). Aqueles falsos mestres transformavam a graça de Deus em libertinagem, como se a misericórdia de Deus representasse conivência em relação ao pecado. O fato de Deus não punir imediatamente o pecador significa que este tem oportunidade para se arrepender. Contudo, isso não significa que o juízo foi esquecido. Caso não haja arrependimento, haverá o castigo. OS MENSAGEIROS DO MAL Tais elementos são muito perigosos porque entram nas igrejas (v.12) e conseguem posições de liderança e ensino (v.8,12). A sua aparência não é ameaçadora. Pode até ser agradável. Contudo, seu procedimento denuncia seu caráter. O autor utiliza muitas figuras de linguagem para mostrar tal realidade. APARÊNCIA CARÁTER Nuvens sem água Árvores sem fruto, sem vida, sem raiz firme Ondas bravias Estrelas errantes Rochas submersas Pastores que apascentam a si mesmos A aparência pode ser muito boa, mas o conteúdo deixa a desejar. Apresentam um potencial muito grande, mas não utilizado como deveria. Por exemplo, a rocha, que poderia servir como base em uma construção, encontra-se submersa, representando um perigo oculto e fatal. As figuras de linguagem utilizadas nos falam de elementos que não se encontram fixos, não têm firmeza, encontram-se em movimento constante: nuvens levadas pelo vento, árvores que não estão presas por suas raízes, ondas do mar, estrelas cadentes. Os falsos mestres não conseguem se firmar dentro da verdadeira igreja do Senhor. Por isso é que acontecem os escândalos e eles se vão. Vemos no texto também a questão da inutilidade de tais pessoas. Uma estrela cadente não serve como ponto de referência. Ondas bravias só causam destruição. Nuvem sem água não produz chuva. Além disso, é levada pelo vento e nem sombra produz. O mesmo acontece com a árvore que, além de não ter frutos, foi arrancada. Nesse caso, o que não é útil pode se tornar uma ameaça. Então, nada lhe resta senão o fogo, que representa o juízo divino. Assim, Judas apresenta o caráter dos falsos mestres, o perigo de sua mensagem e o destino que lhes cabe, a exemplo do que aconteceu com os rebeldes israelitas do deserto, e Sodoma, Gomorra, etc. Não devemos olhar para os fracos na fé e vê-los como falsos na fé. Por isso, Judas adverte que devemos ter compaixão daqueles que estão em dúvida (v.22). Devemos salvá-los (v.23), tomando cuidado para não sermos contaminados com seus erros práticos ou doutrinários. Judas adverte a respeito dos falsos, mas tem uma expetativa positiva em relação aos verdadeiros irmãos. "Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo; " (v.17). "Mas vós, amados, edificando-vos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna". (v.20-21). A conjunção "mas" introduz um texto com teor contrário ao anterior. Depois de falar sobre a mensagem, a vida e o destino dos falsos mestres, o autor exorta que os destinatários se firmassem na palavra ensinada pelos apóstolos de Cristo. Desse modo, teriam uma vida livre da corrupção e, consequentemente, seriam apresentados imaculados diante de Deus para a vida eterna. Por essa razão, Judas encerra sua epístola de modo tão exultante, com uma expressão de louvor a Deus. PARALELO ENTRE JUDAS E II PEDRO II PEDRO ASSUNTO JUDAS 2:1 Falsos mestres 1:4 2:4 Anjos que pecaram 1:6 2:6 Sodoma e Gomorra 1:7 2:10 Contaminados e atrevidos 1:8 2:11 Contenda de anjos 1:9 2:15 Animais irracionais 1:10 2:17 Caminho de Balaão 1:11 2:18 Nuvens levadas pelo vento 1:12,13 3:2-5 Falando coisas arrogantes 1:16 3:2 Lembrai-vos das palavras 1:17 3:3 Escarnecedores dos últimos tempos 1:18 Em caso de utilização impressa do presente material, favor mencionar o nome do autor: Anísio Renato de Andrade - Bacharel em Teologia.

3-JOÃO

Autor: Apóstolo João Data: entre 90 e 95 d.C. Tema: Caráter cristão. Palavra-chave: verdade. ESBOÇO 1 - Saudações - 1-4. 2 - O bom exemplo de Gaio - 5-8. 3 - Diótrefes - o ambicioso - 9 - 11. 4 - Demétrio - o cristão fiel - 12. 4 - Considerações finais e saudações - 13-15. A epístola em estudo é de autoria do apóstolo João. Para confirmação compare os versículos: III João 1 II João 1 III João 13-14 II João 12 III João 11 II João 9 A terceira epístola de João é uma correspondência particular dirigida a um irmão chamado Gaio. Este nome era bastante comum naquela época. Temos sua ocorrência em At.19.29, At.20.4, Rm.16.23, I Cor.1.14, além de III João. Contudo, tais passagens não se referem sempre à mesma pessoa. Não temos muitas informações sobre Gaio, a quem João escreve. Entendemos que ele não era o líder de sua igreja local. O versículo 9 indica que o líder é outro. A QUESTÃO DA PROSPERIDADE O verso 2 diz: "Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai à tua alma." Este talvez seja o versículo mais conhecido dessa pequena carta, o qual é muitas vezes utilizado como apoio para a doutrina da prosperidade. Devemos observar que a única certeza do texto está relacionada à alma do destinatário, ou seja, seu bom estado interior. No mais, o verso expressa apenas o desejo de João no sentido de que Gaio tivesse boa saúde e fosse próspero em todas as coisas. Não temos ali uma promessa nem uma doutrina sobre prosperidade material. Tal êxito depende do propósito de Deus para cada pessoa. Gostaríamos de ser bem sucedidos em tudo e em todo o tempo. Porém, essa trajetória certamente será muitas vezes interrompida por tribulações, as quais fazem parte da nossa experiência cristã. ANDAR NA VERDADE (vs.3-4). Tal expressão, tão importante para João, significa praticar, viver de acordo com a verdade. O verbo andar foi também muito utilizado pelo apóstolo Paulo em seus ensinamentos sobre a vida cristã (Gál. 5.16,25; Ef.4.1; 5.15; etc.). Trata-se do "procedimento" mencionado no verso 5. PROCEDIMENTO, TESTEMUNHO E EXEMPLO (vs.3,4,6,10,12) A palavra testemunho tem destaque em todos os escritos de João, desde o evangelho até o Apocalipse. Como cristãos, damos testemunho a respeito do Senhor Jesus, e isso vai gerar um outro testemunho que será dado a nosso próprio respeito. O procedimento será observado e produzirá um testemunho positivo ou negativo. João se alegrou pelo testemunho dado pelos irmãos a respeito de Gaio. Contudo, os estranhos também dão testemunho. Nesse contexto, os "estranhos" são irmãos vindos de outros lugares. No verso 12, todos dão testemunho, inclusive o próprio apóstolo e a própria verdade. Parece que a verdade, nesse contexto, está relacionada à doutrina, a qual serviria como parâmetro para confirmar determinado testemunho. Vemos portanto, que as nossas obras geram testemunhos a nosso respeito e essas mensagens circulam rapidamente e estruturam ou derrubam nossa reputação. A epístola destaca o procedimento de Gaio, Diótrefes e Demétrio. Daí surgiram testemunhos positivos e negativos, fazendo com que essas pessoas se tornassem bons ou maus exemplos, a serem imitados ou evitados. Gaio e Demétrio são apresentados como cristãos fiéis (vs.3-6,12). Diótrefes é visto como ambicioso. Estava na liderança, mas João não o reconhece como tal. O apóstolo diz que Diótrefes "gosta de ter entre eles a primazia." (v.10). Ele gostava de ser líder, contudo não era vocacionado para aquele trabalho. Seu caráter se manifesta por suas palavras e ações: - Profere palavras maliciosas. - Não recebe o apóstolo João na igreja. É rebelde contra as autoridades espirituais. - Proíbe que os irmãos o recebam. - Exclui da igreja quem o faz. (v.10). Gaio, que já andava na verdade, deveria se inspirar nos bons exemplos (v.11).

2-JOÃO

Autor: Apóstolo João Data: entre 90 e 95 d.C. Propósito: Alertar contra os enganadores; combater a mentira. Palavra-chave: verdade. ESBOÇO 1 - Saudações - 1-3. 2 - O caminho da verdade e do amor - 4-6. 3 - Os enganadores e como tratá-los - 7-11. 4 - Saudações - 12-13. O autor não menciona seu próprio nome. Apresenta-se como "presbítero", que significa "ancião", conforme já consta em algumas versões bíblicas. Os anciãos, desde os tempos do Velho Testamento, eram os homens mais velhos, mais experientes, e, por conseqüência, líderes do povo (Êx.3.16,18; 4.29; 12.21 etc.). Ao escrever seu evangelho e epístolas, o apóstolo João já era idoso. Estando já familiarizados com os escritos do apóstolo, logo reconhecemos sinais de sua autoria na segunda epístola. Por exemplo, a ênfase sobre os temas: "verdade", "amor", "mandamento", "permanecer", e o combate às falsas doutrinas. Tudo isso constitui marca de João em seu evangelho, na primeira epístola, e também na segunda. Afinal, dos 13 versos da segunda epístola, 8 se encontram quase idênticos na primeira. Destinatária - A segunda epístola é dirigida a uma senhora e seus filhos. Tal mulher não é identificada pelas escrituras. Há quem defenda a tese de que a "senhora eleita" seja Maria, irmã de Marta, a qual estaria mencionada no versículo 13. Há quem tome o termo "senhora" em grego, kuria (kuria), considerando-o como nome próprio. Outras hipóteses sugerem que João estivesse chamando de "senhora eleita" a uma igreja específica ou à igreja em geral. Nada disso se comprova. Seguindo a mais rigorosa interpretação, não podemos afirmar qual tenha sido essa mulher. Apenas entendemos tratar-se de uma senhora que, provavelmente era viúva. Caso tivesse marido, não seria natural que o apóstolo lhe dirigisse diretamente uma carta. O texto parece indicar que em sua casa aconteciam reuniões da igreja (vs.10). De qualquer forma, trata-se de uma mulher amada e respeitada por todos os irmãos que a conheciam (vs.1). Tema - todas as epístolas de João foram escritas na mesma época. Nota-se na segunda, que os assuntos da primeira ainda persistem na mente no apóstolo. Ele ainda se mostra combativo em relação aos enganadores. Seu esforço é a favor da verdadeira doutrina de Cristo. NOSSA RELAÇÃO COM A DOUTRINA DE CRISTO Cristo veio e nos deu sua doutrina, seu mandamento, que consiste no amor a Deus e ao próximo. O amor determina nosso vínculo com Deus e com os irmãos. Já recebemos a sua doutrina. A questão agora é: vamos andar nesse mandamento? O verbo "andar" é muito utilizado por João e também por Paulo, indicando nosso modo de vida, nossas decisões, nossos rumos, nossas ações. Se praticamos a vontade de Deus, então estamos andando em espírito (Gál. 5.16), andando com Deus (Gn.5.22,24), no caminho que é Cristo (Jo.14.6). Contudo, de nada adianta estarmos no caminho por algum tempo se sairmos dele antes de chegarmos ao lugar onde ele nos levaria. Portanto, precisamos permanecer no caminho, por mais difícil que isso possa ser. Aos que permanecerem, Deus dará a devida recompensa. Os enganadores ameaçam o êxito desse processo (vs.7 a 10). Isso ocorre com aqueles que abandonam o caminho da verdade e do amor, não permanecendo na doutrina de Cristo (vs.9). Os que se desviam perdem a recompensa, perdem o fruto do seu trabalho e fazem perder-se o fruto do trabalho daqueles que os conduziram a Cristo (vs.8). João disse que alguns "vão além" da doutrina. Esta é uma forma sutil da heresia: Exigir mais do que o que Deus exigiu. Esperar mais do que o que Deus prometeu. Precisamos ser cuidadosos no sentido de não criarmos doutrinas extra-bíblicas, como se a palavra de Deus precisasse de complemento. Os que lideram precisam estar atentos em relação ao que exigem de seus liderados. Estaremos indo além da palavra de Deus? Vemos em Gênesis que, ao repetir o mandamento divino, Eva lhe acrescentou as palavras: "nem nele tocareis" (Gn.3.3). Paulo profetizou que nos últimos dias, surgiriam doutrinas de demônios, proibindo o casamento e determinando a abstinência de manjares que Deus criou para os fiéis (I Tm.4.1-3). A bíblia fala em dízimo, que significa 10%. Se alguém quiser dar 100%, fique à vontade. Será uma oferta voluntária. Entretanto, se algum líder exigir 100%, estará indo além, muito além, da doutrina bíblica. Esperar mais do que aquilo que Deus prometeu pode ser uma atitude inofensiva ou não, dependendo da situação. Se alguém espera que Deus lhe dê uma casa na praia, isso não é pecado. Contudo, não sabemos se Deus fará isso. Pode ser que sim e pode ser que não, uma vez que a bíblia nunca nos prometeu esse tipo de coisa. Então, se Deus não der, qual será a reação daquele que pediu e esperou? O problema se agrava quando esse tipo de expectativa é alimentada por formas doutrinárias, como as que temos ouvido hoje em dia, e que estão destituídas de fundamento bíblico. Esta é uma das formas de "ir além" da doutrina de Cristo. A palavra do Senhor nos ensina que ele atende aos nossos pedidos desde que estejam coerentes com a sua vontade (I Jo.5.14; Tg.4.3). A doutrina gnóstica, tão influente nos dias de João, negava a humanidade de Cristo, atribuindo-lhe apenas caráter espiritual. Era então um ensinamento espiritualista, o que, aparentemente, demonstrava elevação, desapego em relação à matéria. Estavam indo muito além da espiritualidade bíblica, a qual não nos nega o provimento às nossas legítimas necessidades físicas (I Tm.4.1-3; Col.2.16-23). O cristianismo mostra o espiritual se encontrando com a matéria. "O verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1.14). E este era o principal ponto negado pelos enganadores a quem João combatia (II João 7). O próprio batismo e a ceia do Senhor fazem com que os nossos corpos participem das nossas experiências com Deus. Palavras de João: "vimos com os nossos olhos... e as nossas mãos tocaram..." (I João 1.1). Era uma experiência física com o verbo encarnado. Uma espiritualidade exagerada, que vai além dos parâmetros bíblicos, é algo que deve ser questionado. Como exemplos podemos mencionar certas abstinências alimentares ou o celibato. Tudo isso pode ser praticado, desde que seja voluntário. Se for doutrina, será humana. Sobre os enganadores, aqueles que não trazem a doutrina de Cristo, João diz: "Não os recebais em casa nem tampouco os saudeis." Está estabelecido o limite para a hospitalidade cristã, tão valorizada pelos escritores do Novo Testamento. Não devemos ser tão bons ao ponto de acolher os lobos que vêm para ameaçar nossa firmeza na fé. O apóstolo não está nos aconselhando a sermos rigorosos contra os fracos na fé, mas sim contra aqueles que nos procuram com o objetivo de corromper a doutrina que recebemos do Senhor. Não trate bem uma serpente. Ela te matará na primeira oportunidade. Deduzimos que a "senhora eleita" era uma viúva. Seria mais um motivo para que ela ficasse atenta em relação àqueles que desejassem entrar em sua casa. Muitos exploradores, disfarçados de mensageiros de Deus, "devoravam as casas das viúvas" (Mt.23.14; II Tm.3.6). PALAVRAS EM DESTAQUE Verdade - II João 1,2,3,4. Mandamento - II João 4,5,6. Amor - II João 3,6 Ensino (doutrina) - II João 9,10. Permanecer - II João 2,9. Anticristo - II João 7.

1-JOÃO

AUTORIA - João, o apóstolo. Seu nome não é mencionado em suas três epístolas. Não obstante, sua autoria foi confirmada por Policarpo, Papias, Eusébio, Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano. O nome "João" significa "graça de Deus". Era judeu, pescador (Mt.4.21), irmão de Tiago, filho de Zebedeu e Salomé (Compare Mt.27.56 e Mc.15.40). Foi chamado de discípulo amado - Jo.13.23; 19.26; 21.20. Foi o discípulo mais íntimo do Mestre. Até no momento da crucificação, João estava presente. Isso mostra sua disposição de correr risco de vida para ficar ao lado de Jesus. Apesar de ter fugido no momento da prisão de Cristo, João voltou pouco tempo depois. Jesus chamou João e Tiago de boanerges, "filhos do trovão", referindo-se ao seu temperamento indócil, tempestuoso, violento (Mc.3.17; Mc.9.38; Lc.9.54). São várias as citações a respeito de João nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Seu nome é omitido no seu evangelho (João 20.2; 19.26; 13.23; 21.2). Encontram-se referências ao apóstolo também em At.4.13; 5.33,40; 8.14; Gl.2.9; 2 Jo.1; 3 Jo.1; Apc.1.1,4,9. Na segunda e na terceira epístola, ele se apresenta como "o presbítero". Podendo se apresentar como apóstolo, demonstrou humildade ao utilizar título mais simples. Em Apocalipse, apresenta-se como "servo". Após o exercício do seu ministério em Jerusalém, João foi pastor em Éfeso, onde morreu entre os anos 95 e 100. Policrates (ano 190), bispo de Éfeso, escreveu: "João, que se reclinara no seio do Senhor, depois de haver sido uma testemunha e um mestre, dormiu em Éfeso." Palavras chave: Conhecimento (ou saber) , amor e comunhão. Data de escrita da primeira epístola - Final do primeiro século, entre os anos 95 e 100. Local de origem - Éfeso Destinatários - Por não conter saudações, despedidas ou menção de nomes, tem-se considerado que a carta foi destinada à igreja em geral. O apóstolo trata carinhosamente os destinatários como "meus filhinhos" (2.1,18,28; 3.7,18; 4.4; 5.21) e "amados" (3.2,21; 4.1,7,11). Isso parece indicar que, embora não tenha vinculado a epístola a uma comunidade específica, o autor tem em mente pessoas conhecidas, as quais seriam as primeiras a receberem aquela mensagem. CARACTERÍSTICAS A carta apresenta denúncia contra os falsos e incentivo aos verdadeiros cristãos. O autor é incisivo, direto, totalmente convicto. Sua afirmações são muito fortes no sentido de apontar o erro e a verdade. O propósito da carta está bem definido com também vimos no evangelho (João 20.31). A epístola foi escrita: 1 - "Para que a nossa alegria seja completa" - 1.4 2 - "Para que não pequeis" - 2.1. 3 - Para advertir contra os enganadores - 2.26. 4 - "Para que saibais que tendes a vida eterna" - 5.13. Entendemos que o autor estava bastante preocupado com a igreja, em seu estado presente e futuro. Os demais apóstolos já haviam morrido e falsos mestres apareciam por toda parte. Alertando os irmãos, o apóstolo ficaria mais tranqüilo e sua alegria seria completa (1.4). Seu alerta é contra o pecado (2.1) e contra as heresias (2.26). São duas portas para o diabo entrar nas vidas e nas igrejas. Embora as duas coisas estejam intrinsicamente ligadas, as heresias apresentam um elemento muito perigoso. Todo tipo de pecado deve ser evitado, mas se, eventualmente, cometermos algum, confessaremos e seremos perdoados (1.7,9; 2.1). A heresia entretanto, constitui-se num caminho de afastamento de Deus. A heresia, do tipo mencionado por João, leva à apostasia. Então, tem-se uma situação muito perniciosa em que a pessoa está errada mas pensa que está certa. Trata-se de um estado de pecado sem reconhecimento, sem confissão, sem arrependimento e, consequentemente, sem perdão. Aquele que passa a crer numa doutrina contrária à cruz, como pode ser perdoado? Não é que Deus se recuse a perdoá-lo, mas a própria pessoa não acredita na única solução divina, que é o sacrifício de Cristo. A reversão desse quadro é possível, mas muito difícil. O melhor é a prevenção contra as heresias e isso se faz através do conhecimento e apego à Palavra de Deus. CENÁRIO OBSERVADO POR JOÃO A situação da igreja inspirava cuidados. Notamos isso pelo que se lê nas cartas às sete igreja da Ásia (Apc.2 e 3). As heresias grassavam em muitas comunidades. Em Apocalipse, livro escrito na mesma época, João menciona as expressões "sinagoga de Satanás" (Ap.2.9), "nicolaítas" (Ap2.6,15), "doutrina de Balaão"(Ap.2.14), etc. O gnosticismo, sistema que mistura idéias filosóficas, crenças judaicas e cristãs, era uma das principais fontes de heresias da época. Assim, muitos cristãos se tornaram gnósticos. Criam em Jesus mas negavam a realidade de sua encarnação e morte. O fato de se denominarem cristãos criava uma situação confusa. Quem eram os verdadeiros cristãos? Os que criam de uma forma ou os que criam de outra? João observou a necessidade de identificação, discernimento, definição e posicionamento. Observemos as perguntas-chave que autor apresenta: 1 - "Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?" (I Jo.2.22). 2 - "Quem é o que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?" (I Jo.5.5). O autor se mostra bastante interessado em mostrar "QUEM É O QUÊ". São usados pronomes demonstrativos e indefinidos para apresentar especificações bem definidas que permitem identificar os indivíduos em relação a Cristo. João usa repetidamente a fórmula: "Quem não faz isso não é aquilo". ou "Quem faz tal coisa é outra coisa". Aquele - 2.6,11,17,22,23,26,29; 3.4,6,17; 5.1,5,16,18 (Veja também II João 1.9). Alguém - 2.1,15,27; 4.20; 5.16. Quem - 4.7,8,9,10. O mentiroso e o verdadeiro precisam ser identificados. Essa é a missão de João em sua primeira epístola. O autor ajuda a identificar os personagens do cenário e a situação dos próprios leitores no contexto da verdade e da mentira. O exemplo clássico utilizado é o de Caim e Abel (I Jo.3.11-12), representando dois grupos de pessoas que estavam dentro da igreja. O autor identifica quem está em comunhão com Deus e quem não está. No quadro a seguir, listamos diversas expressões da epístola através das quais se traça uma linha divisória entre os dois grupos. Vamos chamá-los, alegoricamente, de "grupo de Abel" e "grupo de Caim". "Grupo de Abel" "Grupo de Caim" Vida (1.1,2; 2.16,25; 3.14,15,16; 5.11,12,13,16,20) Morte (3.14; 5.16-17) Verdade - 1.6,8; 2.4,5,8,21,27; 3.18,19; 4.6; 5.7,20. Mentira - 1.6,10; 2.4,21,22,27; 4.20; 5.10 Erro - 4.6 Engano - 1.8; 2.26; 3.7 Verdadeiro (2.8,27; 5.20) Falso ou mentiroso (2.22) Espírito da verdade (4.6) espírito do erro (4.6) Cristo (1.3, etc) Anticristo (2.18,22) Amor ao irmão (2.10) Amor ao mundo (2.15) Sofre ódio do mundo (3.13) Ódio ao irmão (2.11; 3.15) Luz - 1.5,7; 2.8,9, 10. Trevas - 1.5,6; 2.8,9,11. É possível passar de um lado para o outro. Esse trânsito pode ser chamado conversão ou, no sentido contrário, apostasia. João disse que "passamos da morte para a vida." (3.14). E o seu cuidado era para que não acontecesse o processo contrário com alguns irmãos que, envolvidos pela heresia, pudessem passar da verdade para a mentira. IDENTIFICANDO A DOUTRINA, O MESTRE E O ESPÍRITO A heresia é uma doutrina errada, mas isso pode não estar tão claro no início. O que chega até nós é simplesmente uma doutrina. Esta deve ser então identificada. Por meio dos parâmetros encontrados na epístola, o autor identifica a doutrina, o mestre e o espírito que está por trás (2.22-23, 4.1-6). As chaves identificadoras são: Relação com Cristo (2.22-23); Relação com os irmãos. (3.10,17). Relação com o mundo (2.15). Estes são os "instrumentos" que nos farão identificar a verdade e a mentira. Tais indicadores são complementares entre si. Se alguém negar que Cristo é o Filho de Deus, estará reprovado. Não está na verdade. Se alguém afirma que Cristo é o Filho de Deus mas nega sua encarnação e morte, estará reprovado. Se alguém diz ter uma fé correta a respeito de Cristo, então o próximo teste é a relação com os irmãos. Se a pessoa odeia os irmãos ou lhes nega auxílio nas necessidades, então estará reprovada. Se a pessoa ama o mundo, anda segundo o mundo, vive de modo agradável ao mundo, pecando habitualmente, então está do lado da mentira. A relações com os irmãos e com o mundo constituem evidências visíveis do tipo de relação que temos com Cristo, uma vez que esse vínculo é espiritual e invisível. O objetivo dessas colocações não é sairmos julgando as pessoas dentro da igreja. Em primeiro lugar, cada um deve julgar e purificar a si mesmo (I Jo.3.3; 5.10; I Cor.11.28,31; II Cor.13.5; II Jo.1.8). Depois, é preciso que saibamos julgar as profecias e as doutrinas que recebemos (I Cor.14.29; I Tess.5.20-21; I Cor.10.15). Se uma doutrina é contrária a Cristo, contrária à comunhão dos irmãos ou favorável ao mundanismo, então deverá ser rejeitada. Finalmente, a vida de um mestre deverá ser avaliada para que se decida sobre a sua doutrina. "Pelos seus frutos os conhecereis." (Mt.7.15-16). Muitos irmãos podem apresentar uma série de erros e até mesmo pecados por uma questão de imaturidade, fraqueza, ignorância, etc. Não devem ser alvos de julgamentos mas de orientação. O objetivo de João era alertar contra aqueles que se colocavam como mestres da igreja. ESTAR E PERMANECER - POSIÇÃO E PERSEVERANÇA No cenário da verdade e da mentira precisamos nos localizar. Onde estamos? João usa diversas vezes o verbo "estar". Em algumas delas, ele se preocupa em "localizar" espiritualmente as pessoas. Se guardamos a palavra e amamos os irmãos, isso indica que "estamos" em Cristo. Quem não ama seu irmão, "está" nas trevas. Finalizando, o autor diz que "estamos" em Cristo, que é o verdadeiro Deus. (I Jo.2.5,6,9; 5.20). Podemos ter nossa posição muito bem definida. Entretanto, vamos mantê-la? Um outro verbo muito importante para João é "permanecer". Lembre-se do capítulo 15 do evangelho de João: "Permanecei em mim e eu permanecerei em vós". "Se alguém permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto." "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora." "Se vós permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós pedireis o que quiserdes e vos será feito." "Permanecei no meu amor...", etc. Na primeira epístola, a ênfase continua nos seguintes textos: 2.10,14,17,19,24,27,28; 3.6,9,14,15,17,24; 4.12,13,15,16. Em todos esses versículos aparece o verbo "permanecer". Isso demonstra a preocupação do autor com a perseverança dos irmãos no caminho da verdade. (Veja também II João 1.2,9). COMBATE AO GNOSTICISMO João se mostrou bastante combativo em relação ao gnosticismo. Esta palavra vem do termo grego "gnosis" que significa "conhecimento". Os gnósticos criam e ensinavam que a salvação da alma dependia do conhecimento de alguns mistérios só revelados aos que participavam de seus rituais de iniciação. O apóstolo usou então a mesma palavra, "conhecimento", para combater as heresias gnósticas. Tanto no evangelho como na primeira epístola, ele mostrou o que realmente importa conhecer: A verdade, que é o próprio Cristo e o amor, que é o próprio Deus. O conhecimento sem amor pode causar tragédias. A bomba atômica é um exemplo clássico. O verbo "conhecer" aparece nos seguintes versículos: I Jo. 2.3,13,14,18,20; 3.1,6,16,19,20,24; 4.2,6,7,8,13,16; 5.2.20. (II João 1.1). A carta destaca também a palavra "luz", que também é um símbolo do conhecimento: 1.5,7; 2.8,9, 10. Outro verbo similar é o "saber". Essa palavra tem um sentido muito forte, pois não admite dúvida, insegurança, medo nem ignorância. O comentário da Bíblia Thompson chama a primeira epístola de João de "a carta das certezas". O autor usa o verbo "saber" de uma forma bastante clara e determinada. (I Jo.2.3,5,11,21,29; 3.2,5,14,15; 5.15). Ele diz: "Sabemos que somos de Deus." Não estamos perdidos nem confusos. SABEMOS quem somos, onde estamos e para onde vamos. O gnosticismo afirmava que o mal residia na matéria. Portanto, negavam que Deus pudesse se encarnar. Em relação a Cristo, João escreveu: "nós ouvimos, vimos, contemplamos, nossas mãos tocaram..." (I Jo.1.1-3). Ou seja, o apóstolo estava afirmando insistentemente que o corpo de Cristo era matéria, pois poderia ser tocado, como de fato o foi. Não se tratava de um espírito, uma aparição, como os gnósticos afirmavam. (I Jo.4.2; 5.6) OUTRAS PALAVRAS, EXPRESSÕES E CONCEITOS EM DESTAQUE VIDA - 1.1,2; 2.16,25; 3.14,15,16; 5.11,12,13,16,20 Vida de Deus para nós por meio de Cristo. MUNDO - nosso posicionamento: não amamos o mundo; somos odiados por ele; haveremos de vencê-lo (I Jo.2.2,15,16,17; 3.1,13,17; 4.1,3,4,5,9,14,17; 5.4,5,19). VERDADEIRO - Mandamento - 2.8. Luz - 2.8. Unção - 2.27. Jesus - 5.20. Deus - 5.20. AMOR ( e verbo amar) 2.5,10,12,15; 3.1,10,14,16 (x Jo.3.16). 3.17,18,23; 4.7,8,9,10,11,12,16,17,18,19,20,21; 5.1,2,3. (Obs. II Jo.1,3,6 III Jo.1,6,7 Apc.2.3,4,19; 3.9,19). São da autoria de João alguns dos mais famosos versículos bíblicos sobre o amor: "Deus é amor" e "Porque Deus amou o mundo de tal maneira..." Na primeira epístola, o autor usa o verbo amar em diversas conjugações: ama, ameis, amamos, amemo-nos, amado, amados, amou, amar-nos, amo, amar, ame, amemos. O amor vem de Deus, através de Jesus. "Ele nos amou primeiro". Daí em diante, o amor deve ter livre curso em direção aos irmãos, mas não em direção ao mundo. O amor deve "circular como sangue" no Corpo de Cristo, que é a igreja. COMUNHÃO - 1.3,6,7. MANDAMENTO(s) - 2.3,4,7,8; 3.22,23,24; 4.21; 5.2,3. O QUE SE DIZ E O QUE SE É - 1.6,8,10; 2.4,6,9; 4.20; MANDAMENTOS NEGATIVOS NÃO AMEIS o mundo - 2.15. NÃO CREIAIS a todo espírito - 4.1. O amor e a fé só são positivos quando bem direcionados.

2-PEDRO

Autoria No primeiro versículo, o autor já se apresenta como "Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo." Pouco adiante, Pedro menciona que presenciou o episódio da transfiguração (I Pd.1.16-18; Mt.17.5). No capítulo 3, versículo 1, o autor se refere à primeira epístola. Data - 64 d.C. Destinatários - por 3.1 entendemos que os destinatários são os mesmos da sua primeira carta: cristãos dispersos na Ásia Menor. O primeiro versículo do livro parece sugerir que o autor pretendia que seu escrito tivesse um alcance maior: ele se dirige "aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa..." Temas e Objetivos - Animar os irmãos (cap.1); Denunciar os falsos mestres (cap.2); Falar sobre a segunda vinda de Cristo. Textos chave - 2.1 e 3.1-4. ESBOÇO Caminho 1 - A vida cristã - uma palavra de estímulo - 1.1-21. Caminho 2 - Os falsos mestres - denúncia - 2.1-22. 3- A segunda vinda de Cristo e o juízo - 3.1-18. A segunda epístola de Pedro nos fala de dois caminhos. O primeiro, apresentado no capítulo 1, é chamado de "caminho da verdade" (2.2), "caminho direito" (2.15) e "caminho da justiça" (2.21). Embora essas expressões estejam no capítulo 2, é no início da carta que o autor fala sobre o procedimento do cristão. O outro caminho, o dos falsos mestres, é apresentado no capítulo 2 e chamado "caminho de Balaão" (2.15). É interessante notarmos que, ao falar do caminho de Balaão, Pedro não está se referindo àqueles que nunca conheceram o Senhor, mas ele fala de pessoas que foram resgatadas (2.1), mas desviaram-se das veredas da justiça (2.15,20,21,22). O próprio Balaão era um profeta verdadeiro até que, pelo interesse financeiro, desviou-se da verdade. Em cada um desses caminhos temos: ponto de partida, modo de caminhar e ponto de chegada, conforme fica evidente na epístola. 1 - Caminho 1 - A vida cristã - uma palavra de estímulo - 1.1-21. O capítulo 1 está falando da trajetória cristã. O ponto de partida está em 1.4: "...havendo escapado da corrupção que pela concupiscência há no mundo". Trata-se da conversão. Quem se converte não pode achar que já tem tudo o que Deus pode oferecer. A partir do versículo 5, o autor apresenta uma lista de qualidades ou capacidades que devem ser alcançadas pelo cristão. Aquele se converte tem fé. A fé foi alcançada (1.1), mas ela não é um fim em si mesma. Pelo contrário, é o início de uma jornada. Com diligência (ou zelo) (1.5), o cristão deve buscar: virtude (bondade ou bom procedimento), conhecimento, temperança (ou domínio próprio), paciência (ou perseverança), piedade, amor fraternal (fraternidade), amor (ágape). Essas qualidades são mutuamente dependentes e complementares. Pedro está propondo um plano de crescimento, o qual deve ser o alvo de todo cristão. É desse modo que a natureza divina se desenvolve em nós (1.4). A fé sem conhecimento pode resultar em fanatismo e heresia. O conhecimento sem fé é intelectualismo ou legalismo. Imaginemos que alguém tem fé, conhecimento, mas não tem amor. Tal pessoa pode ser perigosa, tornando-se um manipulador e até mesmo agressor. Quando Tiago e João quiseram pedir fogo do céu para destruir os samaritanos, eles demonstraram que tinham conhecimento e muita fé, mas nenhum amor ao próximo, nenhuma bondade, nenhuma paciência, nenhum domínio próprio. Felizmente, Jesus impediu aquela tragédia e, mais tarde, aqueles discípulos aprenderam a amar. No relato de toda essa experiência cristã, Pedro utiliza diversas palavras que podem ser divididas em dois grupos: ações divinas e ações humanas. O início da nossa caminhada se dá pela operação do "divino poder" do Senhor (1.3). A partir daí, o homem tem muito a fazer. PARTE DIVINA PARTE HUMANA Seu poder (1.3) Empregando diligência (zelo) (1.5) Seus dons (1.3) - ele nos deu tudo. Acrescentai bondade, conhecimento, temperança, paciência, piedade, amor fraternal, amor ágape. (1.5) Sua glória (1.3) Procurai confirmar vossa vocação e eleição (1.10) Sua virtude (1.3) Suas promessas (1.4) Sua natureza (1.4) Sua vocação (1.10) - ele nos chamou Sua eleição (1.10) - ele nos elegeu Se Pedro estava exortando (1.12-15) os irmãos a fazerem a sua parte no que diz respeito ao crescimento espiritual, é porque eles poderiam, depois de tudo o que Deus fez, ter cruzado os braços e parado no meio da estrada. Nesse caso, o resultado seria: a visão curta ou mesmo a cegueira espiritual, o esquecimento das primeiras experiências com Deus e o tropeço que poderia levar à queda (1.9-10; 3.17). Os tempos e modos dos verbos encontrados no texto nos ajudam a ver uma trajetória traçada e uma ordem de avanço. Alguns verbos estão no passado, indicando o lugar de onde saímos e aquilo que Deus já fez por nós. Alguns deles, no pretérito perfeito, indicam ações consumadas por Deus. È algo que foi feito e não se vai se repetir. Outros verbos estão no gerúndio e indicam uma ação constante. É presente, mas ainda não foi encerrada. São ações contínuas de Deus a nosso favor e ações contínuas da nossa parte em busca do alvo. Outros verbos estão no futuro e apontam para o resultado desejado. Destacam-se também aqueles que estão no modo imperativo e indicam ordem para que avancemos em nosso caminho com Deus. PASSADO PRESENTE CONTÍNUO IMPERATIVO FUTURO Alcançaram fé (1.1) Nos tem dado promessas (1.4) Acrescentai (1.5) Não vos deixarão ociosos (1.8). Nos deu tudo (1.3) Empregando diligência (1.5) Procurai (1.10) Jamais tropeçareis (1.10) Nos chamou (1.3) Vos será concedida entrada no reino (1.11). Havendo escapado da corrupção (1.4) Lendo o quadro anterior, cada coluna, da esquerda para a direita, percebemos a idéia de movimento, de progresso com o passar do tempo. No caminho da vida cristã, o modo de caminhar se define por alcançar, praticar e manter as qualidades e capacidades já mencionadas. Esse deve ser o nosso modo de vida (3.11). O ponto de chegada ou objetivo a ser alcançado pode ser compreendido através das expressões: "para que por elas vos torneis participantes da natureza divina" (1.4), ".. não vos deixarão ociosos nem infrutíferos" (1.8) e "vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (1.11). 2 - Caminho 2 - Os falsos mestres - denúncia - 2.1-22. No capítulo 2, o autor muda para um assunto extremamente oposto ao que estava sendo tratado até então. Seu conteúdo é muito semelhante à epístola de Judas. Enquanto que no capítulo 1, Pedro falava a respeito dos cristãos fiéis, agora ele passa a se referir aos falsos mestres, seu caráter, suas obras e o conseqüente castigo. Esses são os que andam pelo "caminho de Balaão" (2.15). Sabendo de sua morte iminente (1.14), o autor está preocupado com aqueles que talvez o sucederão e aos demais apóstolos na liderança da igreja. Os falsos mestres: Foram resgatados mas desviaram-se (2.1,15,19,20,21,22). Contudo, continuam dentro das igrejas (2.1,13). Estão na liderança (2.2 - muitos os estão seguindo). Seu interesse primordial é o dinheiro. Assim como Balaão (2.3,14,15). São comparados aos anjos caídos, aos contemporâneos de Noé e aos habitantes de Sodoma e Gomorra (2.4,5,6). O ponto de partida desse caminho é o mesmo daqueles mencionados no primeiro capítulo. Já que foram resgatados (2.1), o lugar de onde saíram está identificado como as "contaminações do mundo", de onde escaparam mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo (2.20). Contudo, desviaram-se da rota traçada pelo Senhor (2.15), sendo envolvidos e vencidos pelo mundo, terminando por se afastarem do santo mandamento de Deus (2.20-21). O seu modo de caminhar é identificado através de seu comportamento. O texto apresenta verbos e adjetivos que nos fazem compreender o caráter desses homens: - Falsos, dissimulados, hereges, destruidores, negam a Cristo, libertinos, avarentos, mentirosos, fazem comércio de vidas, são carnais, seguem paixões imundas, são rebeldes, atrevidos, obstinados, como animais irracionais, blasfemos, injustos, luxuriosos, enganadores, adúlteros, insaciáveis, malditos, vaidosos, arrogantes, inconstantes, escravos da corrupção (2.1,2,3,10,12,13,14,18,19; 3.3). Tais palavras variam um pouco de uma versão bíblica para outra. - Apesar de todo esse conteúdo maligno, tais homens apresentam uma aparência positiva. Afinal, são líderes, são mestres, e prometem liberdade aos seus seguidores (2.1,2,19). São fontes... sem água. São nuvens .... também sem água (II Pd.2.17; Jd.12). O aspecto é promissor mas não produzem nada de positivo. Dentre tantas características apresentadas, percebemos que se destacam as atitudes desses falsos mestres em relação à autoridade, ao dinheiro e ao sexo. Eles são rebeldes, avarentos e adúlteros, entre outros adjetivos a estes relacionados. O ponto de chegada desse caminho está demonstrado pelas expressões: "... a sentença..." (2.3). "... a perdição..." (2.3). "... inferno..." (2.4). "... cadeias da escuridão..." (2.4). "... juízo.." (2.4). "... destruição..." (2.6). "... o dia do juízo, para serem castigados." (2.9). "... a negridão das trevas" (2.17). "... o último estado pior do que o primeiro" (2.20). "... juízo e destruição..." (3.7). 3 - A segunda vinda de Cristo e o juízo - 3.1-18. Pedro encerra sua obra com um capítulo escatológico. Após ter falado sobre dois caminhos, dois tipos de vida, o apóstolo fala sobre a segunda vinda de Cristo (3.4) e, novamente, trás à tona o tema do juízo, comparado ao dilúvio dos dias de Noé (3.7). Está em destaque a aparente demora da "parousia". Pedro adverte que o tempo de Deus é diferente do nosso. "Um dia para Deus é como mil anos e mil anos como um dia". (3.8). Sobre a segunda vinda precisamos de duas atitudes: fé e paciência. A aparente demora de Deus é manifestação da sua misericórdia. Ele está dando tempo para muitos ainda se arrependam e se convertam (3.9). Enquanto que o dilúvio foi a destruição dos ímpios e suas obras através da água, Pedro nos diz que o fim desta nossa era se dará por meio de um "dilúvio de fogo". O apóstolo "desenha" um cenário "apocalíptico" iluminado pelas chamas da ira divina. O fogo abrasará (3.10,12), destruirá (3.7) e fará derreter (3.12). Serão atingidos: os céus (3.7,10,12), a terra (3.7,10) e todas as coisas que nela há (3.10-11). Semelhantemente ao texto de Apocalipse 21.1, Pedro também fala de novos céus e nova terra (II Pd.3.13; Is.65.17).

1-PEDRO

ESBOÇO 1 - Natureza da salvação - 1.1-21 2 - Crescimento do cristão - 1.22 - 2.10. 3 - Vida cristã prática - 2.11 - 3.22. 4 - Exortações diversas - 4.1-19 5 - Admoestações aos líderes - 5.1-14. Texto chave - 4.1 Palavra chave - sofrimento (1.11; 2.20; 3.17; 4.19; 5.1,9,10) Autoria Apesar de ter sido considerado homem inculto e iletrado (At.4.13), Pedro escreveu uma epístola de alto nível. Talvez aquele rótulo advenha do fato de Pedro não ter freqüentado as universidades gregas da época, nem ter sido um escriba ou doutor da lei. Contudo, isso não significa que ele fosse analfabeto e ignorante. Se lhe faltava muito da vasta cultura grega, o mesmo não se pode dizer quanto ao idioma, pois o grego era falado por todas as classes sociais. Além disso, falava o aramaico e talvez o hebraico. Como todo bom judeu, Pedro tinha todo o conhecimento da lei de Moisés e demais Escrituras do Velho Testamento. A forma do seu texto pode também ter sido influenciada pela mão de Silvano, que foi seu amanuense (I Pd.5.12). A autoridade do autor fica evidente. Além de ser apóstolo (I Pd.1.1), Pedro foi "testemunha das aflições de Cristo" (I Pd. 5.1). Seu ensino estava, portanto, bem fundamentado, sendo digno de aceitação. Além de Silvano, também Marcos estava na companhia de Pedro quando escreveu a primeira epístola (I Pd.5.13). Data - Os comentaristas sugerem datas entre 63 e 68 d.C. O ano mais indicado é 64. Destinatários - cristãos dispersos na Ásia Menor (judeus e gentios) - 1.1; 2.10. Durante algum tempo, Pedro foi contrário à evangelização dos gentios. Vemos, portanto que, por ocasião do envio dessa epístola, tal problema já tinha sido superado. Agora Pedro já aceita os gentios e os considera tão dignos do evangelho e do reino de Deus quanto os judeus. O apóstolo chega a tomar palavras ditas a Israel no Velho Testamento, aplicando-as aos gentios que fazem parte da igreja. "...Antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus...". (I Pd.2.9-10). Outros textos desenvolvem esse paralelismo entre a igreja e Israel, citando o sacrifício e o templo numa nova perspectiva (I Pd.1.19; 2.4-5). A epístola foi dirigida aos irmãos que moravam em regiões por onde Paulo passou e fundou igrejas. Por quê Pedro escreveria para eles? Isso faz com que alguns entendam que, quando essa epístola foi produzida, Paulo já teria morrido. O fato Silvano e Marcos, antigos companheiros de Paulo, estarem com Pedro também é usado como argumento a favor dessa hipótese. Circunstância - A carta foi escrita numa época de grande perseguição imperial contra a igreja após o incêndio em Roma. No livro de Atos, os principais perseguidores eram os judeus. No período em que Pedro escreveu, os perseguidores passaram a ser os gentios (4.3,4,12). Características - O livro é exortativo, consolador, cristológico, "cristocêntrico". Observamos que Tiago quase não cita Jesus em sua carta. Pedro, porém, cita-o a todo momento. Aquele que o havia negado, agora tem no seu nome a base de sua doutrina. Pedro apresenta Jesus como: Fonte de esperança - 1.3 Cordeiro do sacrifício - 1.19. Pedra angular - 2.6 Exemplo perfeito - 2.21-23. Aquele que levou nossos pecados - 2.24. Sumo pastor - 2.25. Bispo das nossas almas - 2.25. Aquele que está assentado à destra de Deus - 3.22. Coisas preciosas para Pedro Provas - 1.7 Sangue - 1.19 Pedras - 2.4 Cristo - 2.6 Espírito manso - 3.4 Propósito da carta - firmar, orientar, confortar. Para os irmãos atribulados, Pedro oferece uma palavra de esperança, menciona os fundamentos da fé cristã e o que Deus tem para nós no futuro. Quando as tribulações se multiplicam, é bastante oportuno que essas verdades sejam mencionadas para renovação da fé e do ânimo. A obra de Cristo no passado (1.3) e a herança cristã no futuro (1.4-5) são mencionados como estímulo para se enfrentarem as dificuldades presentes (1.6). Em tais circunstâncias, é necessário que nos lembremos de quem somos. Nossa identidade pode estar sendo questionada pelos homens, pelo diabo (Mt.4.2) ou até mesmo por nós mesmos. Pedro então enfatiza essa realidade espiritual que, muitas vezes, é desafiada por uma realidade aparente adversa. Ele utiliza enfaticamente o verbo ser: "Não éreis povo..."; "Agora sois... povo de Deus, geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido..." (2.9-10). "Sois guardados, mediante a fé, para a salvação." (1.5). "Sois edificados como casa espiritual." (2.5). O autor lembra aos seus leitores o que Cristo fez por eles (1.2,3,19; 2.5,21; 3.18). Nos momentos difíceis é bom lembrarmos o que Jesus fez por nós e qual é o nosso vínculo com ele. O inimigo procura colocar tudo isso em dúvida na hora da tentação. ESBOÇO COMENTADO Podemos delinear uma seqüência de pensamento na epístola, embora os temas às vezes se intercalem. 1 - Natureza da salvação - 1.1-12 Salvos pela obra de Cristo O autor começa sua epístola falando sobre a salvação e a herança no céu. Os irmãos que estavam padecendo perseguições poderiam questionar sobre o efeito de sua conversão. Talvez alguns estivessem esperando uma herança na terra, uma vida tranqüila e próspera. Deus pode nos dar todo tipo de bênção material, mas isso não é uma promessa de Cristo para todo aquele que nele crê. Isso depende da vontade de Deus para cada pessoa. O que ele promete a todos nós é a vida eterna, uma herança nos céus. Não podemos esperar conquistas materiais como efeito obrigatório do evangelho. O resultado pode ser a frustração. Por outro lado, nada impede que o cristão trabalhe para conseguir o que lhe for lícito, assim como também fazem os não salvos. Entretanto, a busca material não se tornará o objetivo principal da nossa vida ou da nossa fé. 2 - Crescimento do cristão - 1.13 - 2.10. O que somos e o que devemos ser Tendo falado da salvação, Pedro poderia agora expressar palavras comemorativas e congratulatórias para seus destinatários como se tudo estivesse resolvido. Contudo, não é assim. Agora que estamos salvos, precisamos do crescimento espiritual, que só é possível mediante o legítimo alimento espiritual: a palavra de Deus (1.23-25; 2.1-2). A palavra "portanto", de 1.13, liga as duas seções do texto. O "portanto" indica que considerando tudo o que foi dito antes, seriam apresentadas, a seguir, admoestações que estariam relacionadas às conseqüências naturais ou necessárias ao bom andamento da questão anterior. Como dissemos, Pedro utiliza bastante o verbo "ser". Observamos principalmente as conjugações: "sois" e "sede" em referência ao que já "somos" pelos méritos de Cristo e por nosso compromisso com ele, e o que devemos "ser". Observe na palavra "sede" o modo imperativo indicando uma ordem. Pedro já disse que somos salvos... portanto... precisamos ser: - Santos (separados da corrupção do mundo) 1.15-16. - Sóbrios (conscientes, atentos e vigilantes) (1.13). - Obedientes (1.14). Essas poucas palavras resumem tudo o que Deus espera de nós. 3 - Vida cristã prática - 2.11 - 3.22. O risco do pecado; vigilância; oração; serviço; comportamento; sofrimento e glória. Após a conversão, temos um caminho pela frente: é a vida cristã prática. Pedro menciona situações e relações do cotidiano. O pecado é mencionado como um risco constante (2.11-12; 4.1-6; 1.13-16). Pedro, que um dia disse que não negaria a Cristo e acabou negando três vezes, está bem consciente de que o pecado pode acontecer, embora não deva. Diante desse risco real, o autor nos aconselha a orar e vigiar (4.7; 5.8-9) . Contudo, a vida cristã apresentada por Pedro não é apenas espiritual. Não se resume à oração e à vigilância. Ele ensina o serviço cristão, exemplificado através da hospitalidade e do ministério (4.9-11). Não basta orar; é preciso agir, trabalhar. Outro item abordado é o comportamento. As falhas nesta área podem invalidar nossas orações (3.7) e nosso serviço. Pedro menciona então a vida social e civil (2.12-17), familiar (3.1-7), profissional (2.18). Aconselha maridos, esposas e servos. O Sofrimento é o tema principal da epístola. Esse elemento também faz parte da vida cristã. Esta era a situação vivida pelos destinatários da carta. O autor diz que não devemos estranhá-lo, como se fosse algo anormal (4.12). Então, devemos concluir que o mesmo faz parte do plano de Deus para nós, pois ele assim o quer (3.17). Trata-se de algo necessário (1.6). Tais afirmações podem ser chocantes. Por quê Deus quer que soframos? Não é que ele queira o sofrimento em si, mas sim o resultado do processo. Existem virtudes que não serão adquiridas de outra forma. O sofrimento tem grande força didática. "Te deixei ter fome... para te dar a entender que nem só de pão viverá o homem..." (Dt.8.3). Pedro menciona dois tipos de sofrimento: um pelo evangelho (perseguição, tentações e perseguições) e outro pelo pecado (conseqüências e punições). O autor adverte que se sofremos como cristãos, sem culpa, então somos bem-aventurados. Se sofrermos merecidamente, então nenhuma honra receberemos (2.19-20; 4.14-16). Lembremo-nos do Calvário. Dois tipos de sofrimento ali aconteciam: Jesus morria inocente, enquanto que os ladrões morriam em conseqüência dos seus próprios erros. O sofrimento pela causa do evangelho trará como conseqüência a glória. Esta é outra palavra importante na epístola, indicando glória presente na vida do cristão, glória futura e também a vanglória (1.24); (1.7,8,11,21; 2.12,20; 4.11,13,14,16; 5.1,4,10). O sofrimento é de pequena duração quando comparado com a glória eterna que nos aguarda (1.6; 5.10. Veja também Rm.8.18). Queremos a glória (e às vezes até mesmo a vanglória), mas sofrimento... jamais. Queremos colher o fruto sem plantar sua erva. Queremos participar da glória de Cristo em sua vinda, mas não queremos participar dos seus sofrimentos. Pedro vincula tais elementos (1.11; 4.13; 5.1). Para justificar a necessidade e a utilidade do sofrimento, Pedro cita Cristo como exemplo (2.21; 3.18). O mesmo apóstolo se diz testemunha das aflições de Cristo e participante da glória. Com isso, ele deixa subentendida sua própria participação nos sofrimentos pelo evangelho. Diante do sofrimento somos levados a procurar seus motivos. Perguntamos: por quê está acontecendo isso? O que eu fiz para merecer isso? Assim, olhamos para trás em busca da causa. O sofrimento pelo pecado pode ser assim compreendido. Podemos olhar para trás e reconhecer nossa falha. Muitas vezes, porém, não conseguimos ligar o fato presente ao erro cometido. No caso do sofrimento permitido por Deus sem que tenhamos pecado, devemos olhar para frente e perguntar: para quê está acontecendo isso? Mesmo que não possamos, em muitos casos, saber o propósito específico, sabemos, de modo geral, que toda adversidade que nos ocorre vem para o nosso próprio crescimento. Todo exercício físico, corretamente realizado, contribui para o desenvolvimento e manutenção da boa forma muscular. Tais exercícios não são leves nem suaves. Se assim fossem, seriam inúteis. Assim são as provações e adversidades que enfrentamos. São exercícios para o espírito e para o caráter. Por meio deles nossa fé cresce, nossa paciência e nossa experiência se desenvolvem. O produto do sofrimento faz com ele se justifique e seja até mesmo valorizado por escritores bíblicos como Pedro e Paulo (Rm.5.3-5). O ouro é retirado da jazida em estado bruto, cheio de sujeira e deformidades. Contudo, não será rejeitado por isso. Da mesma forma Deus nos resgata: sujos e deformados. Ele não rejeita a sua vida, por mais sujo que você esteja. Podemos até lavar aquela pepita de ouro, mas isso não será suficiente. Algumas impurezas estão encrustadas no metal. Então, o ourives precisa levá-lo ao fogo (Malaquias 3.2). Pedro compara o fogo às tribulações e diz que assim como o ouro precisa passar pelo fogo, da mesma forma nossa fé precisa ser provada para que sejamos aprovados (I Pd.1.7). O fogo, por mais destruidor que seja, só destrói as impurezas do ouro. No final do processo, o metal está limpo, brilhante, e muito mais valorizado. Assim acontece conosco. Em sua primeira epístola, Pedro menciona muitos termos negativos e muitos outros positivos. Pode parecer conflito ou paradoxo, mas não é. Nossa vida é assim. Todos os elementos negativos do processo são necessários para que os positivos se manifestem. É uma relação necessária. Sem morte não haverá ressurreição. Primeiro vem o fogo, depois o brilho e o valor. Só não é necessário o pecado nem o sofrimento que dele advém, já que não produz nenhum benefício, exceto uma lição que deveria ter sido aprendida de outra forma. Vejamos então as palavras negativas e positivas encontradas em I Pedro NEGATIVAS Sofrimento - 5.9 Fogo - 1.7. Provação - 4.12 Tristeza - 1.6; 2.19. Aflição - 4.13; 5.1 Vitupério - 4.14 Padecimento - 5.10 POSITIVAS Fé - 1.21; 5.9 Glória, honra - 1.7,8,21; 2.17,20; 4.11,14; 5.1,10 Esperança - 1.21 Alegria, exultação, gozo inefável - 1.8; 4.13 Amor - 1.20,22; 2.17; 3.8; 4.8 Misericórdia - 1.3; 2.10 Paz - 1.2; 3.11; 5.14. Graça - 1.2; 5.5,12 Louvor - 1.7; 2.14 Dias felizes - 3.10 Muitas vezes, as experiências negativas são presentes, enquanto que o benefício está indicado para o futuro (I Pd.1.4-5; 4.13; 5.1,4,6,10). Contudo, já no tempo presente experimentamos a esperança, a paz, a alegria, o amor, a misericórdia, etc. A glória, ou exaltação, é o principal elemento localizado no futuro, vinculado à segunda vinda de Cristo. 4 - Exortações diversas - 4.1-19 Nesse bloco são incluídos diversos conselhos sobre comportamento, amor mútuo, serviço e novamente sobre o sofrimento. 5 - Admoestações aos líderes - 5.1-14. Pedro se dirige especialmente aos anciãos, os presbíteros da igreja, dizendo que os mesmos deviam ser exemplo para o rebanho e não dominadores. O líder não deve agir como se fosse dono das ovelhas, como se fosse senhor de suas vidas. Liderança não é manipulação nem opressão, mas orientação amável. A ovelha deve ser vista como alvo de cuidado e proteção e não como fábrica de leite e lã, embora ela os produza. DESTAQUES DA CARTA PEDRAS VIVAS O texto de Mateus 16.16-18 tem sido objeto de muitas discussões. Seria Pedro a pedra fundamental da igreja? Em sua primeira epístola, o apóstolo diz que todos os cristãos são "pedras vivas" e que Cristo é a principal pedra da construção que é a igreja. Se é assim, então Pedro continua pedra, como é o significado do seu nome. A igreja está firmada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas. Eles foram as pedras fundamentais da igreja. Porém, Cristo é a pedra principal. Sem ele, a construção não existiria. Qual é a relação entre tais pedras e a igreja? Tal fundamento está diretamente ligado às vidas, obras e ensinamentos desses homens, os apóstolos e profetas. Eles foram os primeiros a compor a igreja do Senhor. O próprio Jesus, por sua vez, é a pedra principal pois deu sua própria vida para que a igreja existisse. Foi ele quem resgatou com seu sangue todos aqueles que fariam parte dessa construção espiritual. Voltando às palavras de Pedro, todos nós somos pedras vivas, fazendo parte da igreja. Não fazemos parte do fundamento, pois a igreja já existia antes de nós. Porém, fazemos parte da obra, estando apoiados sobre os que nos antecederam e servindo de base para os que se inspiram em nosso testemunho e palavra ( I Pd.2.4-8; I Cor.3.11; Ef.2.20-22). A PREGAÇÃO AOS MORTOS "Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas, isto é, oito almas se salvaram através da água." (I Pd.3.18-20). Este é um dos textos mais misteriosos das Sagradas Escrituras. As polêmicas em torno do seu significado não têm fim. Procuraremos expor resumidamente as principais linhas de interpretação do assunto em questão. Leia também I Pd.4.5-6, Rm.10.7, Salmo 16.10 e Ef.4.9. Neste assunto, além dos católicos não concordarem com os protestantes, estes últimos não concordam entre si. Encontramos posições diferentes de uma denominação evangélica para outra. A pergunta inicial é: Jesus foi ao inferno? O texto de Pedro não está dizendo isso, mas esta tem sido, muitas vezes, a interpretação adotada, principalmente por causa de outros textos bíblicos, dos credos da igreja católica e dos livros apócrifos, alguns dos quais mencionam explicitamente a descida de Cristo ao inferno entre sua morte e sua ressurreição. Por exemplo podemos citar o chamado "credo dos apóstolos" e os apócrifos: "Evangelho de Bartolomeu" e "Evangelho de Nicodemos". Um paralelo entre tais escritos e os textos bíblicos mencionados produzem a interpretação correspondente. Questão Respostas encontradas nos comentários Jesus foi ao inferno? Sim Não Como ele foi? Em seu espírito humano em carne e espírito Através do Espírito Santo De jeito nenhum. A quem ele pregou? Aos justos Aos ímpios (todos ou só aos da época de Noé) A justos e ímpios. Aos anjos caídos. A ninguém O que ele pregou? O evangelho Sua vitória O evangelho e sua vitória Nada Com que objetivo? Salvar os justos Salvar os ímpios Salvar a todos Declarar sua vitó-ria Sofrer (batismo de fogo?) Nenhum Qual foi o efeito? Salvação e ressurreição dos justos. Salvação dos ímpios. Salvação de todos. Conde-nação dos ím-pios Nenhum O quadro apresentado assemelha-se a uma prova de múltipla escolha onde existem alternativas para todos os gostos, inclusive para quem não gosta de nenhuma. Contudo, trata-se apenas da exposição das diversas interpretações do texto de I Pedro 3.18-20, juntamente com uma série de pressupostos considerados em cada caso. Cada alternativa traz uma série de conseqüências naturais (?) ou teologicamente necessárias, formando assim um intrincado conjunto de perguntas intrigantes, respostas incertas e dúvidas crescentes. Uma vez que o próprio texto bíblico não foi claro sobre o assunto, torna-se muito improvável que possamos sê-lo. Contudo, tal exposição poderá ajudar o estudante a tirar suas próprias conclusões. Algumas alternativas apresentadas podem ser refutadas pelo simples retorno ao texto de I Pedro. A passagem não diz que ele foi pregar aos justos e nem que teria sido a todos os mortos ou a todos os ímpios. São mencionados apenas os ímpios que viveram nos dias de Noé. Alguns comentaristas estendem tal pregação a todos os mortos, utilizando o texto de I Pedro 4.5-6, onde isso fica mais evidente. Dizer que Cristo foi em carne e espírito ao inferno, seria o mesmo que ele estava vivo antes da ressurreição. Se carne e espírito estão juntos, então não estamos falando de Cristo durante seus três dias em estado de morte. Dizer que o Espírito Santo foi ao inferno resgatar alguém é fazer uma grande confusão entre as funções das pessoas da trindade. Tal equívoco se dá pelo fato de que algumas traduções usam a palavra "Espírito" com letra maiúscula em I Pd.3.18. Aqueles que dizem que Cristo não foi ao inferno, afirmam que ele foi se apresentar ao Pai após sua morte. Mencionam como argumento as palavras de Jesus ao ladrão crucificado: "Hoje estarás comigo no paraíso." (Lc.23.43 e 46). Como explicariam então o texto de Pedro? Calvino chegou a afirmar que a cruz foi o "inferno" experimentado por Cristo. Para os anabatistas, este mundo foi o "inferno" ao qual Cristo desceu ao encarnar. Pelo que ficou registrado nos livros, até o século IV d.C. era plenamente aceita a idéia de que Cristo tenha mesmo descido ao inferno, assim identificado como o "lugar dos mortos". Somente a partir do século V é que passou-se a questionar tal sentido. Nesse tempo, Agostinho propôs o seguinte entendimento para o texto de Pedro: o evangelho teria sido anunciado aos mortos no tempo em que os mesmos estavam vivos. Assim, os contemporâneos de Noé teriam ouvido a pregação antes do dilúvio. O espírito de Cristo, mencionado em I Pd.3.18, estaria agindo através de Noé, o pregoeiro da justiça. Tal interpretação, bastante inteligente, não explica o texto de I Pd.4.5-6, onde todos os mortos parecem estar envolvidos. Além disso, o texto de I Pd.3.18-20 fala que a pregação foi dirigida a "espíritos em prisão" e não a pessoas vivas. O texto de Atos (2.27-31) talvez seja o mais claro para que se conclua que Cristo foi ao inferno. O autor utiliza a palavra Hades. Esta palavra estaria sendo usada em referência a um lugar espiritual? ou simplesmente à sepultura? (2.29) ou apenas ao estado de morte? (2.31). Algumas versões usam a palavra "hades" (A.R.C.) enquanto outras a traduzem como "morte" (Thompson e A.R.A). A versão católica dos Monges de Maredsous menciona "região dos mortos", o que não indica um sentido estritamente físico ou espiritual. A bíblia das Edições Loyola utiliza a expressão "mansão dos mortos". A versão do padre Antônio Pereira de Figueiredo traduz "hades" como "inferno". A palavra "hades" é grega e se origina da mitologia dos gregos, sendo utilizada para identificar o lugar espiritual para onde vão os mortos. O hades estaria divido em duas partes: O "elísio" para os bons e o "tártaro" para os maus. Os hebreus tinham uma concepção semelhante sobre a região dos mortos. Chamavam-na de seol, ou sheol, também com um lugar para os justos e outro para os ímpios. Entretanto, sheol também significa sepultura. Como o Novo Testamento foi escrito em grego, então foram usadas as palavras gregas que mais se aproximavam do conceito hebraico. Assim, a dúvida sobre lugar físico ou espiritual prevalece. Sheol (ás vezes traduzido como inferno ou sepultura): Gn.37.35; Nm.16.30; Jó 21.13; Salmo 9.17; Pv.5.5; 7.27; 9.18; 15.24; 23.14; Dt.32.22; Jó 26.6; Pv.15.11; 27.20; II Sm.22.6; Salmo 18.5; 116.3; Os.13.14. Hades (às vezes traduzido como inferno): At.2.27,31; Mt.11.23; 16.18; Lc.10.15; Lc.16.23; Ap.1.18; 6.8; 20.13-14. Geena (às vezes traduzido como inferno): Mt.5.22,29,30; 10.28; 18.9; 23.15; 23.33; Lc.12.5; Tg.3.6; Mc.9.43-48. Tártaro (às vezes traduzido como inferno): II Pd.2.4. O Velho Testamento passa a idéia de que o Sheol é um lugar para onde vão todos os mortos, bons e maus. É normalmente identificado com o hades do Novo Testamento. Veja que em Atos 2, a citação do Salmo 16, troca Sheol por Hades. Os luteranos interpretam hades como sinônimo de inferno e seio de Abraão como paraíso. Utilizam a passagem de Lucas 16.22-25. O paraíso seria o lugar para onde o cristão iria imediatamente após a morte, a encontrar-se com Cristo (Filipenses 1.23). Os católicos romanos dividem o hades em: inferno, purgatório, limbus patrum e limbus infantum. Eles entendem que Cristo tenha ido ao limbus patrum ou seio de Abraão, onde estariam os justos do Velho Testamento aguardando a salvação cristã. Apesar da boa organização de idéias, tal teoria não tem apoio bíblico, já que a Bíblia não menciona purgatório nem limbus. É bastante antiga a idéia de que alguém pudesse descer ao hades com alguma missão. De acordo com a mitologia grega, Hércules teria ido até lá. Histórias semelhantes são encontradas na literatura babilônica, egípcia, e romana. Conforme Orígenes, houve entre os judeus a crença de que os profetas do Velho Testamento tenham ido ao seol, onde continuariam seu ministério de pregação. Tal suposição aparece também no Talmude. Assim, a crença de que Cristo teria ido ao inferno não seria de difícil aceitação. Alguns, como Clemente de Alexandria, chegaram a dizer que os apóstolos também teriam ido ao hades após suas mortes para pregar e que também os demais cristãos teriam essa missão. Isso seria usado por alguns para justificar mortes de pessoas jovens (J.Paterson Smith). Afinal, segundo essa tese, essas pessoas teriam grande trabalho a executar na região dos mortos. Apresentamos, a seguir, outro quadro comparativo sobre o assunto, destacando a posição denominacional e de alguns líderes e teólogos. Cristo foi e salvou os justos Cristo foi e salvou a todos Cristo não foi ao inferno. Cristo foi mas não salvou ninguém Cristo salvou apenas algumas pessoas Defendido por católicos Algumas igrejas reformadas Anabatistas Luteranos Lutero, mais tarde assumiu essa posição. Algumas igrejas reformadas. Arminianos * Calvinistas Flacius Zwínglio Agostinho Calov Marcion Wolf Tertuliano Buddeus Aretius * Calvino Encontramos duas posições distintas atribuídas a Calvino em relação à ida de Cristo ao inferno. Não sabemos se ele mudou de idéia como ocorreu com Lutero. Uma das fontes consultadas foi escrita por um calvinista e nega a ida literal de Cristo ao inferno. Alguns livros apócrifos afirmam que Cristo esvaziou o inferno, salvando todos os que ali estavam. Essa idéia serve bastante aos que pregam o "universalismo", que consiste na crença em uma salvação universal. Tais teólogos afirmam que ninguém escapará do alcance da graça de Deus e, finalmente, todos serão salvos, até mesmo os anjos caídos. Se assim fosse, então não precisaríamos pregar o evangelho. Para o melhor entendimento possível a respeito desse assunto é fundamental que consideremos o ensino geral da Bíblia. Qualquer suposição deve ser confrontada com outros textos das escrituras para que se conclua sobre sua prevalência ou não. Jesus teria ido pregar aos mortos para que estes se salvassem? Tal entendimento não parece coerente com outras passagens das escrituras. Se, depois de viverem e morrerem no pecado, todos os ímpios ainda pudessem se salvar, então de nada teria valido a vida de justiça dos justos, já que todos acabariam no mesmo lugar e na mesma situação: salvos. É bem provável que Jesus tenha anunciado o evangelho aos justos do Velho Testamento, embora o texto de I Pedro 3.18-20 não os mencione. O fato é que muitos deles ressuscitaram após a ressurreição de Cristo, conforme está em Mateus 27.51-53. Davi disse: "Não deixarás minha alma no hades." Além de estar profetizando sobre Cristo, ele não poderia também estar falando sobre sua própria alma, conforme uma interpretação literal do Salmo? Os ímpios mortos também teriam ouvido a respeito do evangelho mas não poderiam ser salvos. Contudo, tal conhecimento serviria para legitimar a autoridade de Cristo para julgá-los no último dia. "... Áquele que está preparado para julgar os vivos e os mortos. Pois é por isto que foi pregado o evangelho até aos mortos..." (I Pd.4.5-6). Jesus teria descido para tomar as chaves da morte e do inferno das mãos do Diabo? Os calvinistas dizem que isso não faz sentido, já que o Diabo nunca teve tais chaves. Por outro lado, podemos também questionar: quem disse que o Diabo mora no inferno? Pelo que sabemos, ele habita o planeta terra e circula pelas regiões celestiais. Muitas vezes o inferno é mencionado pelas pessoas como um lugar onde o Diabo mora e faz suas reuniões estratégicas com os seus demônios. Em algumas dessas supostas reuniões, eles estão eufóricos com seus planos e realizações. Não estaríamos alimentando um folclore religioso com tudo isso? Afinal, a bíblia mostra o inferno como um lugar de tormento e não de reuniões satânicas. Se o Diabo lá estivesse, estaria sofrendo tormentos e não fazendo planos.

THIAGO

ESBOÇO 1 - Prefácio e saudações - 1.1 2 - As provas e tentações - 1.2-18. 3 - A prática da palavra de Deus - 1.19-27. 4 - A acepção de pessoas - 2.1-13. 5 - A fé e as obras - 2.14-26. 6 - Os males da língua - 3.1-18. 7 - Várias exortações práticas - a oração e a paciência - 4.1 - 5.20. AUTORIA De acordo com o primeiro versículo da epístola, o nome do autor é Tiago, que se apresenta como "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo". "Tiago" é a forma grega do nome hebraico "Jacó", que significa "suplantador". Em princípio pode parecer que a autoria esteja clara e bem definida. Contudo, não é assim. Já que o Novo Testamento menciona várias pessoas com o nome de "Tiago", surge a questão de qual deles teria sido o autor da carta. Temos, no mínimo, três personagens distintos com o nome de Tiago: 1 - O maior, irmão de João, filho de Zebedeu (Mt.10.1-4) 2 - O menor, filho de Alfeu. (Mc.15.40). 3 - O irmão de Jesus (Mt.13.55; Mc.6.3). Em Atos 1.13-14 os três estão presentes, mas o texto fala de um certo Judas, que era filho de Tiago. Não fica claro se esse Tiago era um dos três já citados ou se poderia ser um quarto personagem. As passagens dos evangelhos que citam Tiago, geralmente estão se referindo ao irmão de João. Sua morte é mencionada em Atos 12.2. Não sabemos o que aconteceu com o filho de Alfeu. A partir daí, existem outras referências que citam Tiago, em Atos e nas epístolas. Tais passagens são normalmente relacionadas à pessoa do irmão de Jesus. Em Gálatas, Paulo fala de seus contatos com Tiago, irmão do Senhor, que estaria em Jerusalém. Com base nesse texto, os outros também são associados, por dedução, à mesma pessoa. Tal associação é bastante aceita pelos críticos e parece muito coerente. Quem segue essa ligação de textos acaba por atribuir ao irmão de Jesus a autoria da epístola em epígrafe. Alguns comentaristas preferem não seguir essa tendência e se abstêm de apontar o autor. Considerando que Tiago, irmão do Senhor Jesus, escreveu a carta, destacamos algumas informações sobre a sua pessoa, conforme nos auxiliam o Novo Testamento, as conjecturas e a tradição eclesiástica. Tiago não cria em Jesus antes da crucificação (João 7.5). É possível que sua conversão tenha se dado após a ressurreição de Cristo, quando este lhe apareceu (I Cor.15.7). Juntou-se então aos discípulos (At.1.14), tornando-se apóstolo (Gál.1.19) e uma das "colunas" da igreja em Jerusalém (Gál.2.9). Sua liderança obteve grande destaque, conforme se observa em Atos 12.17; 15.13-29; 21.18 e Gálatas 2.12. Tiago veio a ser chamado "o justo", por sua integridade, e "joelho de camelo" devido as marcas que possuía em virtude de suas constantes orações. Segundo Flávio Josefo, o irmão de Jesus morreu em 63 d.C. Sendo pressionado pelos judeus para que negasse a Cristo e tendo permanecido firme em suas afirmações, Tiago foi arremessado de um lugar alto nas dependências do templo. Não tendo morrido com a queda, foi apedrejado até a morte. Data - A data de produção da carta se situa entre os anos 45 e 48 d.C. Alguns comentaristas sugerem um período ulterior às epístolas paulinas, na segunda metade do primeiro século. Tema principal - A religião prática. Textos chave - 1.27 e 2.26. Características O livro tem teor prático, rigoroso, usa muitas ilustrações, é direto, tem estilo semelhante ao sermão da montanha. Apresenta diversos preceitos morais. A carta contém 108 versículos, entre os quais temos 54 mandamentos. Sobre seu rigor, destacamos: Tg.1.7; 1.26; 2.9; 2.10; 2.19; 3.6; 3.8; 3.14-15; 4.1-4; 4.8-9; 4.16; 5.1-6. Paralelo entre o livro de Tiago e o Sermão da Montanha. Assunto Tiago Sermão da Montanha Juramento 5.12 Mt.5.34-37 Resposta à oração 1.5; 5.16-18 Mt.7.7 Prática da palavra 1.22 Mt.7.24-27 Julgamento 4.11 Mt.7.1 O uso de ilustrações Tiago, como bom pregador, utiliza de forma magistral as ilustrações, como meio de representar, de modo claro, as verdades ensinadas. Tal recurso ajuda a entender o ensinamento e também a fixá-lo na memória. A epístola utiliza fatos reais, eventos hipotéticos, elementos da natureza e até obras das mãos humanas para expressar suas idéias. Fatos reais: Abraão - Tg. 2.21-23. Raabe - Tg.2.25 Jó - Tg.5.11. Elias - Tg. 5.17-18 Eventos hipotéticos: O pobre e o rico na sinagoga - Tg. 2.2-4. O irmão necessitado - Tg.2.15-16. O doente e os presbíteros - Tg. 5.14-15 Os planos de viagens e negócios - Tg.4.13. Elementos da natureza: O mar e as ondas - Tg.1.6. A fonte e a água - Tg. 3.11-12 A figueira - Tg.3.12. Os figos - Tg.3.12. A videira - Tg.3.12. As azeitonas - Tg.3.12. O vapor - Tg.4.14. A chuva e o fruto da terra - Tg.5.7. O vento - Tg.3.4. O bosque e o fogo - Tg.3.5. Os cavalos - Tg.3.3. Feras, aves, répteis, animais marinhos - Tg.3.7. Frutos - Tg.3.17. A erva, a flor e o sol - Tg.1.10-11. Luz e sombra - Tg.1.17. A traça - Tg.5.2. Obras das mãos humanas: O enxerto - Tg.1.21. O espelho - Tg. 1.23. Os navios e o leme - Tg.3.4. Vestes e anel - Tg.2.2-3. Estrado - Tg.2.3. Figuras de linguagem: A língua é um fogo - Tg.3.6. Está cheia de veneno mortal - Tg.3.8. A cobiça concebe e dá à luz o pecado. Este gera a morte. - Tg.1.15. Alimpai as mãos, pecadores - Tg.4.8. Vossas riquezas estão apodrecidas - Tg.5.2. Vossos vestidos estão comidos de traça - Tg.5.2. Vosso ouro e vossa prata se enferrujaram - Tg.5.3. Sua ferrugem dará testemunho contra vós - Tg.5.3. E comerá como fogo a vossa carne - Tg.5.3. O jornal dos trabalhadores... clama - Tg.5.4. Engordaste os vossos corações - Tg.5.5 . O juiz está à porta - Tg.5.9. Em alguns textos, não é fácil saber se o autor usa determinada palavra com sentido figurado ou literal. Por exemplo, as "guerras" em Tiago 4.1. Destinatários A carta é destinada às 12 tribos da diáspora (dispersão). São judeus cristãos que se encontravam dispersos entre várias nações. (Tg. 1.1; 2.2). Provas e tentações Tiago introduz o assunto com palavras de impacto: "Tende grande gozo quando vos forem enviadas várias provações." (Tg.1.2). Não faz parte do nosso pensamento moderno uma idéia como essa. Em nosso tempo, procura-se o menor esforço e o maior prazer. A epístola nos mostra que as tentações e as provações são elementos presentes e importantes na vida cristã. Por quê essa importância? Tiago responde: "sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência." (Tg.1.3). Precisamos saber isso para termos uma atitude positiva diante daquilo que Deus nos envia ou permite. Tudo o que Deus permitir de negativo em nosso caminho terá um propósito e produzirá alguma virtude em nós. Isso, evidentemente, se sairmos vencedores desse processo. É importante discernir entre prova e tentação e suas respectivas origens. Tiago diz que ninguém pode dizer que é tentado por Deus (Tg.1.13). Deus nos prova, nos coloca em teste. Ele não nos tenta. Entretanto, permite a tentação. Esta vem de dentro de nós, atraída por fatores externos (Tg.1.14-17). A isca é exterior. A tentação está no apetite do peixe. Casos diferentes foram as experiências de Adão, Eva e Cristo. Como não tinham pecado, a tentação foi totalmente exterior (Gên.3; Mt.4). Prova é teste. Tentação é indução ao erro. Toda tentação pode ser vista como prova. Contudo, nem toda prova é tentação. Por exemplo, se Deus nos permite passar por uma situação de dificuldade financeira, isso pode ser uma prova para demonstrar se continuaremos confiantes e fiéis ao Senhor ou não. Se, em meio a tudo isso, aparecer uma oportunidade de ganho ilícito, isso será uma tentação. Estar no deserto é prova. Oferta de "pedras no lugar de pães" é tentação (Mt.4.3). A prova e a tentação revelam o que há em nossos corações. São formas de manifestar o que somos interiormente. Tal demonstração não serve para que Deus nos conheça, pois ele já nos conhece plenamente. A prova e a tentação mostram para nós mesmos a nossa natureza e fraquezas que talvez não conhecêssemos. Além do auto-conhecimento, provas e tentações são oportunidades de aprendizagem, até mesmo quando fracassamos. Tal conhecimento será útil para as próximas vezes. A Religião Prática Confrontando a epístola aos Hebreus com a de Tiago, verificamos que Hebreus contém uma ênfase sobre a fé. Os destinatários precisavam se livrar da dependência que tinham em relação aos elementos visíveis do judaísmo. O valores invisíveis e celestiais são enfatizados. Tiago também escreve aos hebreus. Porém, seu discurso tem uma ênfase diferente. Ele está enfatizando o visível. Enquanto a epístola aos Hebreus fala do céu, Tiago "põe os pés no chão" e nos convida a encarar necessidades e desafios do dia-a-dia. Não existe nisso nenhuma contradição. Os hebreus não deviam depender de elementos visíveis, tais como o templo, os sacerdotes e os sacrifícios, para estabelecer ou manter sua relação com Deus. Então, a fé no invisível é enfatizada. Entretanto, nosso cristianismo não pode ser invisível. Ele precisa se manifestar através de ações no mundo físico. Nessa parte entra a ênfase de Tiago sobre o valor das obras. O invisível não depende do visível, mas precisa produzir evidências visíveis, sob pena de ser considerado inexistente. Por isso Tiago diz: "mostra-me a tua fé sem as tuas obras." (Tg.2.18). Se a minha fé não produz obras, então tenho uma fé tão "eficaz" quanto a própria incredulidade. Precisamos mostrar alguma coisa, pois o mundo espera pra ver. E isso só é possível através de obras. Tiago enfatiza o valor do caráter cristão. Seu livro não se aplica à exposição doutrinária, mas ao apelo veemente à prática de toda a doutrina cristã que já se conhece. O conhecimento da palavra é fundamental (Tg.1.18,21). Ouvir é bom hábito (Tg.1.19). A fé é indispensável (Tg.1.6-7). Mas o processo não pode parar nesse estágio, pois crer, os demônios também crêem. A insistência do autor é a fim de que seus leitores coloquem em prática a palavra de Deus. A epístola mostra o contraste que muitas vezes ocorre entre a fé e a prática. Conhecemos muito, cremos na palavra de Deus, mas praticamos pouco e falamos uma palavra diferente da que ouvimos. Tiago expõe essa contradição e exorta no sentido de corrigir tamanha distorção. ALGUMAS CONTRADIÇÕES OBSERVADAS POR TIAGO Ouve-se a palavra mas não se cumpre (Tg.1.23). Considera-se religioso mas não se refreia a língua (Tg.1.26). Reúne-se em nome de Cristo e comete-se a acepção de pessoas na mesma reunião (Tg.2.1-4). Alguém tem fé mas não tem obras (Tg.2.14). Deseja-se o bem ao próximo mas não se pratica esse bem (Tg.2.15-16). De uma mesma boca procede bênção e maldição (Tg.3.10-12). Alguém é considerado sábio mas tem inveja e sentimento faccioso (Tg.3.13-16). "Cobiçais e nada tendes" (Tg.4.2). (Até no erro ficava evidente a contradição) "Pedis e não recebeis" (Tg.4.3). Deseja-se ser amigo de Deus e, ao mesmo tempo, amigo do mundo (Tg.4.4). Sabe-se fazer o bem mas não se faz (Tg.4.17) ALGUMAS EXORTAÇÕES CORRETIVAS Pedi sabedoria a Deus (Tg.1.5) Sede prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar (Tg.1.19). Rejeitando toda a imundície, recebei com mansidão a palavra (Tg.1.21) Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes (Tg.1.22). Mostrai pelo bom trato as obras em mansidão de sabedoria (Tg.3.13) Sujeitai-vos a Deus (Tg.4.7). Resisti ao Diabo (Tg.4.7) Chegai-vos a Deus (Tg.4.8) Alimpai as mãos (Tg.4.8) Purificai os corações (Tg.4.8) Senti as vossas misérias, lamentai e chorai (Tg.4.9) Sede pacientes (Tg.5.7) Orai (Tg.5.13) Cantai louvores (Tg.5.13) Confessai as vossas culpas uns aos outros (Tg.5.16) A prática proposta por Tiago pode ser traduzida pela expressão "boas obras". Isso inclui: - Ações a favor do próximo. Exemplo: "visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações" (Tg.1.27). - Bom comportamento: "guardar-se da corrupção do mundo" (Tg.1.27). Normalmente nos preocupamos em não fazer mal ao próximo. Está certo, mas além disso precisamos fazer-lhe o bem, pois, se não fizermos, estaremos pecando (Tg.4.17). Conhecimento da palavra, fé em Deus e rituais podem muito bem constituir uma religião falsa se não estiverem associados à obediência, a qual se traduz em prática do que a palavra manda. A prática revela sabedoria, que é o conhecimento introjetado, assimilado e aplicado. Tiago apresenta uma hipotética reunião religiosa onde se peca pela acepção de pessoas. É a religiosidade desprovida de sabedoria, amor e obediência aos preceitos divinos (Tg.2.1-4). Observe que em todos os capítulos do livro encontramos ocorrências do termos "sabedoria", "sábio" ou conjugações do verbo "saber": Tg.1.3,5; 2.20; 3.1,13,15,17; 4.4,14,17; 5.20. Em algumas passagens, o uso do verbo parece ser apenas com fim sintático. Em outras, torna-se evidente a questão do conhecimento e da sabedoria. O livro de Tiago tem sido também considerado por alguns como o "livro de sabedoria" do Novo Testamento, não apenas pelos versículos mencionados, mas pelo uso que faz dos conselhos morais práticos, da mesma forma como se vê nos livros sapienciais do Velho Testamento, principalmente Provérbios. O CUIDADO COM AS PALAVRAS Além das obras, Tiago coloca em evidência o que falamos. Se cremos na palavra de Deus precisamos falar de acordo com essa palavra e também proceder desse modo (Tg.2.12). As admoestações em relação à língua são diversas: - Não falar precipitadamente. Seja tardio em falar (Tg.1.19). Uma vez falada, a palavra não pode ser recolhida. Portanto, é bom que se reflita antes de se pronunciar algo. Assim, evitaremos ofensas, pedidos mal feitos (Tg.4.3), planos incertos (Tg.4.13-15) e até mesmo votos que não podemos cumprir (Obs. Ec.5.4-6). - Não falar demais. Tiago usa a expressões "frear", "refrear" e "domar" a língua. (Tg.1.26; 3.1-12). - Não mentir (Tg.3.14). - Não amaldiçoar (Tg.3.10). - Não acusar a Deus (Tg.1.13). - Não usar palavras vãs no lugar da ação necessária (Tg.2.16). Esse falar vão pode até ser uma oração. Existem momentos em que não adianta orar. É preciso agir. Lembre-se de Moisés diante do Mar Vermelho. Deus disse: "Por quê clamas a mim. Diga ao filhos de Israel que marchem" (Êx.14.15). - Não falar mal nem julgar os irmãos (Tg.4.11). Se existe um problema a ser resolvido com uma pessoa, então não adianta comentar o fato com outros. Talvez, o mal falado até seja verdade. Contudo, ainda assim trata-se de maledicência. Mesmo que o irmão esteja errado, nós não devemos difamá-lo. Quando Noé se desnudou em sua tenda, seu filho Cão foi logo espalhar a notícia e por isso foi amaldiçoado. Os filhos Sem e Jafé tomaram a providência de cobrir a nudez paterna e por isso foram abençoados. - Não reclamar dos irmãos (Tg.5.9). - Não jurar (Tg.5.12). Na seqüência do capítulo 5, versos 13 em diante, o autor nos indica o que devemos falar no lugar das queixas, ou dos juramentos: Ore, cante louvores, confesse seus pecados. Sintetizando, Tiago relaciona: A palavra de Deus, a qual deve ser ouvida e recebida; A fé que depositamos em Deus e em sua palavra; Nosso falar e nosso agir, os quais devem ser coerentes com a palavra, conseqüências e evidências indispensáveis da nossa fé. Ouvir (a palavra) Crer (fé) Falar (O falar certo e o errado) (inclusive oração e louvor) Agir (Boas obras) (Em benefício do próximo) (Manifestação da sabedoria) 1.18,21,25 1.6 1.5,13,19,26 1.4,22-27 2.14-26 2.3,12,14,16 2.12,14-26 3.1-12,14 3.13-17 4.311-12,13-15 4.17 5.4,9,10,13,14,15,17,18 5.20 ARREPENDIMENTO E JUÍZO Diante de uma realidade religiosa tão contraditória e tendo em vista o juízo divino, Tiago convida seus leitores ao arrependimento. Juízo, justiça e termos derivados Convite ao arrependimento, ao choro, à confissão Tg.1.20; Tg.4.7-10 Tg.2.4,9,12,13,21,23,24,25 Tg.5.1,15-16; 5.19-20. Tg.3.1,18 Tg.4.11,12 Tg.5.6, 9,12, 16 A FÉ E AS OBRAS Um dos assuntos mais polêmicos que envolvem o livro de Tiago é o confronto entre fé e obras. Tiago valoriza tanto uma coisa (1.6) quanto a outra (2.14). Porém, sua carta fala mais das obras, já que o autor observou a gravidade da ausência das mesmas na vida religiosa do povo. É como um médico que está indicando um reforço alimentar para suprir a falta de determinado nutriente, sem, contudo, menosprezar os outros. A fé é tão importante quanto fica demonstrado em Romanos e em Hebreus. Entretanto, se essa fé não produzir evidências visíveis, ela será como um plano que nunca foi realizado e seremos como árvores infrutíferas. Obra é fruto (Tg.3.13,17). O fruto do Espírito é amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5.22). Não obstante, tais virtudes precisam se manifestar através de atos e fatos. O fruto não pode ser abstrato. Precisa ser concreto. De que adianta um amor não revelado, não transmitido por meio de ações? (I João 3.18). A fé opera pelo amor (Gálatas 5.6). O amor é o canal por onde flui a fé. O resultado é obra. A fé se mostra superior nessa questão porque a nossa salvação depende dela. "Pela graça sois salvos mediante a fé" (Ef. 2.8). "Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado." (Mc.16.16). Crer é fé. Batismo é obra, ato físico. Observe que ninguém será condenado pela falta do batismo e sim pela falta de fé. Entretanto, aquele que tem fé deverá manifestá-la através de atos de obediência, inclusive batizando-se. As obras devem ocorrer de acordo com os recursos e o tempo que Deus tiver nos concedido. Por exemplo, o ladrão que se converteu na cruz ao lado de Cristo, não teve tempo de se batizar nem fazer obra alguma. Contudo, foi salvo. Nós porém, que temos tempo e recursos devemos fazer boas obras, não para sermos salvos mas como fruto natural da nossa fé. A fé é superior porque produz as obras e não o contrário. Tiago diz: "... se alguém disser que tem fé e não tiver as obras... porventura a fé pode salvá-lo?" (Tg.2.14). O autor não está condicionando a salvação à prática de boas obras. O sentido é o seguinte: se a fé de alguém não produz obras, pode-se concluir que essa mesma fé não produzirá salvação, pois é ineficaz ou inexistente. CONFLITO APARENTE ENTRE TIAGO E PAULO "Vedes então que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé." -Tiago 2.24. "Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei" - Paulo, em Romanos 3.28. Lendo estes dois versículos, podemos pensar que Tiago e Paulo estão se contradizendo. Alguns comentaristas afirmam que a contradição existe e que é inexplicável. O próprio reformador Martinho Lutero tinha essa posição e chegou a usar a expressão "epístola de palha" para se referir ao livro de Tiago. Há quem diga que Tiago tenha escrito para atacar Paulo e seus ensinamentos. Tais hipóteses atentam contra a inspiração divina das Sagradas Escrituras. Outros teólogos apresentam a seguinte solução: Ao escrever aos Romanos, Paulo apresentou argumentos que tinham por objetivo combater a tese judaizante daqueles que exigiam dos gentios o cumprimento da lei mosaica. Diante disso, o apóstolo deixou claro que a salvação não depende das obras da lei, não depende dos rituais judaicos. Em sua exposição, Paulo lembra aos leitores que Abraão não foi justificado pelas obras da lei nem mesmo pela circuncisão, já que o patriarca teve sua experiência com Deus num tempo em que a lei mosaica não existia e até mesmo antes de ser circuncidado. Portanto, sua experiência foi baseada na fé. Paulo não estava falando de boas obras, de modo geral. Ele estava se referindo especificamente àquelas obras exigidas pela lei. Por sua vez, Tiago está preocupado com "o outro lado da moeda". Muitos cristãos estavam reduzindo o cristianismo a uma religião teórica, apenas espiritual, sem efeitos visíveis. A estes, Tiago diz que as obras são importantes. Abraão é usado novamente como exemplo. Depois de ter sua experiência pela fé, Abraão não cruzou os braços. Abraão agiu. Ele saiu da sua terra, se dispôs a oferecer Isaque, e fez tudo aquilo que Deus queria que ele fizesse. Imagine que alguém entra no prédio de uma escola e queira logo apresentar trabalhos de pesquisa, fazer provas e exercícios. Será que a direção acadêmica aceitará tudo isso? De maneira nenhuma. Se o indivíduo não está matriculado, ainda não é aluno da escola. Então, não tem nenhum valor qualquer trabalho apresentado por ele. O que é necessário? A matrícula, o compromisso, o vínculo. Então, depois de matriculado, imagine que esse novo aluno resolva ficar em casa, totalmente alheio aos seus deveres escolares. Então a direção da escola irá procurá-lo para cobrar tudo o que ele deveria estar fazendo. Assim, antes de sermos cristãos, de nada adiantam as nossas boas obras. "Paulo está dispensando". Entretanto, agora que estamos salvos pela fé, precisamos executar as obras como fruto normal de um cristianismo autêntico e sadio. "Tiago está cobrando". Em Romanos 3, Paulo está apresentado a futilidade das obras da lei no plano de salvação. Em outros escritos seus, o apóstolo deixa claro o quanto valoriza as boas obras de modo geral. Não que elas possam nos salvar. "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie." (Efésios 2.8-9). Entretanto, devemos fazer boas obras, porque este é um dos motivos da nossa permanência neste mundo. Caso contrário, poderíamos ter sido arrebatados no momento da conversão. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." (Efésios 2.10). Observe que são palavras de Paulo, na continuação do texto mencionado anteriormente. Quando escreveu a Tito, Paulo colocou nas boas obras a maior ênfase da carta (Tito 2.7,14; 3.1,8,14). Contudo, no mesmo texto, o apóstolo deixa claro que as obras não salvam (Tito 3.4-5). Considerando suas epístolas de modo geral, Paulo enfatiza a fé, sem desvalorizar as obras. Tiago enfatiza as obras, sem desvalorizar a fé. De fato, ambas as coisas são importantes. A fé sem as obras é morta. Da mesma forma, as obras sem fé são obras mortas (Hb.6.1). Glossário de termos do livro de Tiago Improperar - censurar (1.5). Dobre - dupla face (versão católica); vacilante (Thompson). (1.8) Andrajoso - esfarrapado (2.2). Estrado - tablado ou piso acima do nível do chão (2.3). Deferência - respeito. (2.3). Régio - real (do reino). (2.8). Argüido - censurado. (2.9). Peçonha - veneno (3.8). Jactância - orgulho (4.16). Jornal - salário por um dia de trabalho (5.4). Cevaste - engordaste (5.5). Presbíteros - anciãos, pessoas maduras, pastores (5.14). Em caso de utilização impressa do presente material, favor mencionar o nome do autor: Anísio Renato de Andrade - Bacharel em Teologia

epistola aos hebreus

Epístola aos Hebreus Prof. Anísio Renato de Andrade Autoria : incerta. Paulo é um dos mais prováveis nomes sugeridos. Data : entre 60 e 70 d.C. Local de origem: talvez Itália (Hb.13.24). Tema principal: A superioridade de Cristo. Palavra-chave: melhor (ou superior, ou mais excelente). Classificação: cristologia Destinatários: judeus cristãos que talvez residisssem em Jerusalém. O NOME DA EPÍSTOLA "Hebreu" era o nome dados aos israelitas pelas nações vizinhas. Talvez tenha derivado de Éber ou Héber, que significa "homem vindo do outro lado do rio" (Jordão ou Eufrates) (Gn.10.21,24; 11.14-26; 14.13 Js.24.2). Abraão foi chamado de "hebreu". Temos então várias designações para o mesmo povo: - Hebreu: designa descendência. - Israel: destaca o aspecto religioso. - Judeu: da tribo de Judá ou habitante do reino de Judá. Alguns desses termos foram mudando um pouco de sentido com o passar do tempo. O "judeu" do Velho Testamento estava estritamente ligado à tribo de Judá. Depois do cativeiro, a maior parte dos que regressaram a Canaã eram da tribo de Judá. Então, "judeu" tornou-se quase um sinônimo de israelita, já que quase todos os israelitas eram judeus. O termo tem esse mesmo sentido genérico até hoje. O "hebreu" do Velho Testamento era todo indivíduo israelita. No Novo Testamento, esse termo passa a designar mais especificamente aquele israelita que fala aramaico e é mais apegado ao judaísmo ortodoxo, em contraposição ao "helenista", que é o israelita que fala grego e está mais influenciado pela cultura grega. Nesse sentido, veja Filipenses 3.5 e II Coríntios 11.22, nos quais o apóstolo Paulo cita com orgulho o fato de ser "hebreu" , assim como eram seus pais. OS DESTINATÁRIOS A epístola aos hebreus nos mostra que seus destinatários eram judeus cristãos. Ao mesmo tempo em que o autor está se dirigindo a pessoas convertidas a Cristo (Hb.10.19), ele dá a entender que elas tinham um passado de vínculo com o judaísmo. Tais irmãos pertenciam a uma igreja, cujos líderes são anonimamente referenciados no capítulo 13 (versos 7, 17 e 24). A localização de tal igreja é objeto de especulação por parte dos estudiosos e comentaristas. As sugestões mais comuns são: Roma, Jerusalém, Antioquia, Cesaréia e Alexandria. Como se vê, as possíveis cidades eram grandes centros. Jerusalém e Cesaréia eram cidades da Judéia. Nas outras localizavam-se grandes colônias judaicas. Naturalmente, em todas elas havia igrejas locais que contavam com a presença de muitos judeus cristãos. AUTORIA A epístola não apresenta o nome do seu autor. Muitos são os que atribuem a Paulo sua escrita. Em alguns manuscritos antigos encontra-se o título: "Epístola de Paulo aos Hebreus". Evidentemente, o título traz a conclusão de algum copista ou autoridade religiosa, visto que não faz parte do texto. Alguns "pais da igreja" atribuíam a autoria a Paulo sem dificuldades. Os defensores dessa hipótese, utilizam as palavras de Pedro em sua segunda epístola (3.15). A passagem nos informa que Paulo escreveu aos judeus. Contudo, isso não encerra a questão, pois tal escrito pode ter sido a chamada carta aos hebreus, mas pode também ter sido outra. A referência que o autor faz a Timóteo (Hb.13.23) também é usada como argumento. Além disso, a epístola está dividida em dois blocos: doutrinário (capítulos 1 a 11), e prático (capítulos 12 e 13). Isso nos lembra o método paulino. No texto prático do capítulo 13, temos uma lista de admoestações curtas, à maneira de Paulo. A doxologia (13.20-21) e a bênção final (13.25) também reforçam a tese. Os comentaristas que se opõem à autoria paulina, argumentam sobre a diferença de estilo da carta aos Hebreus quando comparada às epístolas paulinas. Alguns creditam a autoria a Barnabé, Lucas, Apolo, ou Priscila. DATA A referência a Timóteo e ao fato de sua prisão fazem a datação do livro se projetar para o final dos anos 60 do primeiro século. Já que as epístolas paulinas não dizem que Timóteo tenha sido preso, então é possível que a carta aos Hebreus tenha sido produzida depois daquelas identificadas paulinas. O livro fala de um sacerdócio em funcionamento no templo de Jerusalém (10.1,11; 9.6-8). Isso nos faz concluir que o livro não pode ter sido escrito depois do ano 70, data da destruição do templo. Portanto, a datação, embora indefinida, fica entre 60 e 70 d.C. CARACTERÍSTICAS O livro tem teor cristológico, ou seja, apresenta um verdadeiro tratado sobre a pessoa de Cristo, principalmente no que tange à sua obra vicária. O livro é apologético. Seu discurso é um forte pronunciamento em defesa da fé cristã contra recuos ou desvios. A carta aos Hebreus liga o Velho e o Novo Testamento de modo brilhante. Temos na obra os seguintes confrontos: - Valores da lei X valores da graça - Símbolos X realidade - Antiga aliança X nova aliança - Passado X futuro (Hb.2.5) TEMA A superioridade de Cristo sobre os profetas, os anjos, a lei, sobre Moisés, Josué, Aarão e sobre os sacerdotes (Hb.1.4; 6.9; 7.7,19,22; 8.6; 9.23; 10.34; 11.16,35,40; 12.24). ESBOÇO 1 - A glória e a superioridade de Cristo - 1.1 a 4.13. 2 - O novo sacerdócio de Cristo - 4.14 a 8.13. 3 - Contraste entre o velho e o novo - 9.1 a 10.39. 4 - A glória da fé - 11.1-40. 5 - A vida de fé - 12.1 a 13.25. O PROBLEMA - ENTRE O PASSADO E O FUTURO. Lendo a epístola, podemos delinear o problema que deu ensejo à sua produção. Os hebreus, a quem a carta foi destinada, eram judeus que, tendo se convertido ao cristianismo, se sentiam tentados a recuar, retornando ao judaísmo. Estavam em uma situação de paralisação espiritual. Viviam em um dilema e, com isso, não cresciam espiritualmente (Hb.5.11-14). O autor escreveu para mostrar a esses irmãos que eles estavam livres da antiga aliança. Tal propósito era de grande envergadura. Se já era difícil provar aos gentios convertidos que eles não precisavam observar a lei, quão árdua seria a tarefa de demonstrar o mesmo princípio para judeus cristãos! Eles estavam presos ao passado, assim como acontece hoje com alguns cristãos que querem obedecer a lei de Moisés. As realidades da graça já eram presentes. Contudo, ainda se encontravam no futuro para aqueles que hesitavam em relação à apropriação das mesmas. O PASSADO O PRESENTE / FUTURO Lei Graça, evangelho Valores da lei Valores da graça Templo (material) Igreja (espiritual) Personagens: Moisés, Aarão, profetas, anjos Jesus e o Espírito Santo Símbolos Realidades Sombras Realidades O visível O invisível Aparência Essência Material Espiritual Transitório Permanente Temporário Eterno Realidade física Realidade espiritual Cópia Modelo original Figura Verdadeiro Antiquado, envelhecido Novo Terreno Celestial Diversos elementos da Velha Aliança podem ser comparados à maquete de uma obra futura. Diante daquele modelo, todos ficam entusiasmados e esperançosos. É o que existe de mais semelhante ao resultado almejado. Depois que a obra é realizada, então o apego à maquete torna-se motivo de zombaria. A obra de Cristo está consumada. Não precisamos mais ficar apegados aos símbolos do passado que apontavam para Cristo. Seria como ficar extasiado diante de uma placa indicativa ao invés de se dirigir ao lugar que ela aponta. Paulo diz que a lei era o aio que nos conduziu a Cristo. O aio era o servo que levava a criança para a escola. Lá chegando, o interesse se voltava para o mestre. Se encontramos o Mestre Jesus, já não faz sentido o apego ao aio lei. A situação dos hebreus foi ilustrada através de uma etapa de sua própria história. O autor demonstra que, assim como seus antepassados estavam no deserto, hesitando diante de Canaã (Hb.4.1), os hebreus estavam hesitantes diante da graça de Deus e seus benefícios. O livro admoesta radicalmente a respeito dos riscos representados pelo retrocesso, pela apostasia (Hb.4.1; 6.1-6; 10.38-39). O desvio encontra-se relacionado à incredulidade, desobediência e rebelião (Hb.2.1-3; 3.12,16-19; 4.11). Em lugar do desvio, os hebreus são aconselhados a avançar com ousadia (Hb.10,19). O aspecto cerimonial da velha aliança era algo grandioso. Como exemplo, podemos citar a grandeza do templo e os belos trajes sacerdotais. Diante de tudo isso, a igreja aparece como algo muito simples. Ela não precisa de um templo, embora possa utilizá-lo. Seus ministros não precisam de belas vestes para a direção do culto. A igreja do Senhor Jesus encontra-se onde estiverem dois ou três reunidos em nome do Senhor. É tudo tão simples que poderia parecer vazio aos olhos dos hebreus. Eles ainda estavam apegados ao templo judaico, mas precisavam se acostumar a viver sem ele, pois sua destruição estava bem próxima (Hb.8.13 ?). O VISÍVEL E O INVISÍVEL (Aparência x essência) Os hebreus estavam muito apegados aos aspectos visíveis do judaísmo. Aliás, o ser humano, em geral, tem essa tendência. Por isso é que muitos objetos acabam sendo incorporados à prática religiosa que, em princípio, é essencialmente espiritual. Na igreja, podemos usar recursos visíveis, uma vez que a Bíblia nos dá exemplos disso. Os lenços de Paulo curavam (At.) Contudo, precisamos ter cuidado para não elaborarmos doutrinas e condicionamentos para a nossa fé. No Velho Testamento, Deus usa recursos visíveis com restrições. Ele mandou fazer a arca da aliança, a serpente de bronze e outros objetos, mas proibiu a fabricação de imagens de escultura como representação de Deus ou de deuses (Dt 4.12, 15-19). Deus pode usar o visível, mas "bem-aventurados os que não viram e creram" (João 20.29). A experiência de Tomé, ao ver o Senhor Jesus ressuscitado, foi autêntica, maravilhosa, importante, mas melhor seria se ele não tivesse dependido disso. Sua fé não foi suficiente. Em Mateus 8.5-10, temos o elogio de Jesus ao centurião que não dependia nem da presença física do Mestre para que seu servo fosse curado. Jesus disse que nem em Israel havia encontrado tanta fé. Quanto mais dependentes nós formos de elementos visíveis para sermos curados ou abençoados, menor é a nossa fé. Recursos, tais como objetos ungidos, podem até ser importantes para os neófitos na fé, mas devem ser abandonados na medida em que vai se chegando à maturidade espiritual. Não podemos fazer de um objeto ungido um amuleto. O autor aos hebreus se esforçava por conduzi-los a um novo nível, em que não dependeriam de objetos sagrados, lugares físicos ou sacerdotes terrenos. O autor coloca em destaque: a fé. O capítulo 11, tão utilizado quando se estuda sobre a fé, ali está com esse objetivo: mostrar aos hebreus que até mesmo seus antepassados, os pais, juízes e profetas, viveram e serviram a Deus e venceram pela fé e não por vista. Portanto, convinha que os hebreus seguissem tal exemplo e se desvencilhassem de toda dependência visual contida no cerimonial judaico. Hb.11.1 - A fé é a certeza das coisas que não se vêem. Os leitores precisavam entrar nessa nova realidade. Não podiam mais depender da aparência. O autor enfatiza que tudo o que vemos foi feito do que não é aparente. Logo, o invisível é anterior e superior ao visível. O visível é a aparência das coisas. É algo que impressiona as pessoas e causa emoções e reações. Muitas religiões usam de grande pompa para impressionar seus fiéis. Com isso, passam a idéia de uma essência que, de fato, não existe. As pinturas, esculturas, a arquitetura e a música são alguns elementos que ajudam a montar um cenário impressionante, mas não constituem essência espiritual (Obs. II Tm.3.5). O mundo espiritual é invisível para nós hoje, mas um dia poderemos vê-lo. Hoje, podemos falar apenas de uma "visão espiritual", como acontecia com os patriarcas (Hb.11.13,26,27). Pela fé, "vemos" o cumprimento das promessas. Um dia porém, Cristo aparecerá (Hb.9.28). Então, o invisível se tornará visível. TERRA E CÉU Utilizando os termos "terra" e "céu", o autor tenta fazer com que seus destinatários "mudem o foco" de sua espiritualidade. Jesus já havia apresentado essa ênfase em sua mensagem ao ensinar sobre o Reino dos céus, tesouro nos céus, Pai nosso que estais no céu, assim na terra como no céu. Qual é a ênfase do nosso evangelho: a terra ou o céu? Valores terrenos ou valores celestiais? Hb. 1.10 - Terra e céu. Hb. 4.14 - Penetrou nos céus Hb. 7.26 - Mais sublime que os céus. Hb. 8.1 - Assentou nos céus. Hb. 9.23 - Figura das coisas que estão no céu. Hb. 9.24 - santuário no céu. Hb. 12.23 - Primogênitos inscritos nos céus. Hb. 12.25 - Aquele que é dos céus. Hb. 12.26 - Terra e céus. A realidade celestial 3.1 - Vocação celestial (passado). Deus nos chama. 6.4 - dom celestial (presente). Deus nos capacita. 8.5 - coisas celestiais (embora já existam, são futuras para nós). 9.23 - coisas celestiais (futuras para nós). 11.16 - pátria celestial (futura para nós). 12.22 - Jerusalém celestial. (futura para nós). Para o escritor aos hebreus, o céu não é um lugar vazio, envolto em névoa branca. Ele fala de uma cidade celestial, de um santuário celestial e coisas celestiais, as quais se constituem em mistério para nós. Em destaque está o santuário celestial, o qual foi visto por Moisés no monte e serviu de modelo para a construção do santuário terreno. Portanto, os hebreus não deveriam ficar apegados ao terreno, mas sim ao santuário celestial, onde Cristo entrou depois de oferecer sua própria vida como sacrifício. A SOLUÇÃO O problema dos hebreus consistia no apego a algo bom. Como disse o apóstolo Paulo em Romanos 7, "a lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom". O apego ao que é bom pode nos privar daquilo que é melhor. A epístola vem mostrar "o melhor" para os hebreus. Esta é a palavra chave da carta. As expressões "superior", ou "tão superior", ou "maior" ou "mais excelente", variando conforme a tradução, também são freqüentes e demonstram o pensamento do autor no seu esforço por apresentar a superioridade de Cristo e do evangelho no confronto com a lei e a velha aliança. Melhor: Hb.1.1-4; 6.9; 7.4,19-22; 8.6; 9.23; 10.34; 11.16; 11.35; 11.40; 12.24; Tão superior: Hb.1.4 Maior: Hb.3.3; 7.7; 9.11; 10.29; 11.26; Mais excelente: Hb.1.4; 8.6; 11.4. As expressões "tão superior" e "mais excelente" contém uma ênfase muito forte. Bastaria dizer que Cristo é superior ou excelente. Contudo, o autor utiliza uma terminologia que demonstra a insuperabilidade do Senhor Jesus. A palavra de Deus nos convida à excelência (I Cor.12.31). Não devemos, pois, ter uma atitude comodista, mesmo que nossa situação espiritual seja boa. "Quem é santo, seja santificado ainda." (Ap.22.11). Avance, suba, progrida. Não existem limites para a nossa experiência com Deus. Mostrar algo melhor para um povo que já tem um pacto com Deus é um desafio muito grande. Contudo, o autor se saiu muito bem na produção de sua apologia. Seu argumento central é a apresentação da pessoa de Jesus. É verdade que ele estava escrevendo para cristãos, pessoas que já conheciam a Cristo. Porém, ainda não haviam compreendido plenamente sua personalidade e sua obra. Os hebreus estavam ainda apegados aos personagens do Velho Testamento: Abraão, Moisés, Aarão, Josué, Davi, profetas, anjos, etc. Então, a epístola apresenta afirmações contundentes sobre Cristo. Ele é apresentado como: Filho de Deus - Hb.1.1; 4.14. Sumo sacerdote - Hb.6.20 Autor da salvação - Hb.2.10. Autor e consumador da fé. - Hb.12.2. etc. Tais afirmações destroem qualquer tentativa de comparação ou desejo de exaltação de homens ou anjos. Todos se reduzem drasticamente diante da grandeza do Senhor Jesus Cristo. Sendo assim, a graça por ele oferecida, a nova aliança, o evangelho e a igreja, estão suficientemente afiançadas para que sejam aceitos sem hesitação. Jesus é o fiador e o mediador da nova aliança (Hb.7.22; 9.15). Na apresentação da superioridade de Cristo, apresenta-se um paradoxo. Os grandes, na concepção humana, são exaltados, servidos, obedecidos e fazem sofrer. Jesus, o maior, foi humilhado, servo, obediente e sofredor. Contudo, todo o seu sofrimento era necessário para ser nosso legítimo representante no exercício do seu sacerdócio (Hb.2.14-18). Ao se falar no sacerdócio de Cristo, os hebreus poderiam levantar o seguinte questionamento: Como Cristo poderia ser sumo sacerdote tendo nascido da tribo de Judá? Os sacerdotes vinham da tribo de Levi. Por isso, o autor diz que Cristo era sumo sacerdote da ordem de Melquisedeque, a qual é anterior e superior à ordem de Aarão, que descendia de Levi. Para que o impasse dos hebreus se resolvesse, eles deveriam entrar na nova realidade apresentada por Cristo: a nova aliança com Deus. A nova realidade é acessada por meio da fé. De fato, sendo judeus convertidos, eles criam em Cristo, mas ainda não usufruíam de todos os recursos da graça. FUNDAMENTOS DA NOVA PROPOSTA A fé e o invisível podem parecer propostas bastante vagas e propiciadoras de infinita especulação imaginativa. Já que o objeto da fé é invisível, então qualquer sugestão pode ser aceita, mesmo que seja algo inexistente? De fato, é o que ocorrido muitas vezes. Homens influentes acabam por convencer muitas pessoas a respeito de uma suposta realidade espiritual. Assim, surgem muitas religiões e seitas. Outras vezes, tal realidade é um fato, mas pertence ao domínio do mal. Diante disso, perguntamos: qual é o fundamento da nossa fé? A fé é o fundamento das coisas que se esperam (Hb.11.1) e o fundamento da fé é a palavra de Deus. "A fé vem pelo ouvir... a palavra de Deus". (Rm.10.17). O autor da epístola aos Hebreus faz então um exame de toda a estrutura cristã, a qual poderíamos comparar a uma construção, onde cada parte está firmada sobre a anterior, que, por sua vez, precisa ser sólida e bem fundamentada. O fundamento da nossa fé é aquilo em que nós cremos. Pela fé aguardamos que um fato aconteça. Então vem a questão crucial: o fato que se espera foi prometido por Deus? Se a resposta for positiva, então nossa fé está fundamentada na promessa, na palavra de Deus. Se a resposta for negativa, então estamos esperando algo que não virá. Quando Pedro andou sobre as águas, seu passo de fé estava firmado na palavra de Jesus que lhe disse: Vem! O mesmo ocorreu na pesca milagrosa. Pedro disse: "Sobre a tua palavra lançarei as redes." (Lc.5.5). Muitas pessoas dizem crer em algo apenas porque isso corresponde ao seu desejo pessoal. Se tal realização estiver no âmbito das possibilidades humanas, então pode mesmo acontecer, mas se depender de uma ação de Deus, então precisa estar fundamentada na palavra de Deus. Além da palavra escrita na Bíblia, Deus pode nos falar de modo específico, visando situações particulares da nossa vida. Quando se faz um exercício de fé sem uma palavra de Deus como base, o resultado pode ser a frustração. Havendo fé na palavra dita por Deus, ainda cabe, em muitos casos, a ação humana coerente com a palavra. É a obediência. Algumas profecias divinas são absolutas e incondicionais. Vão acontecer de qualquer forma. Outras vêm acompanhadas de uma ordem ou mandamento e estão condicionadas à obediência. Por exemplo, a promessa de Deus a Abraão estava ligada a uma ordem: "Sai da tua terra e da tua parentela." Sobre esta palavra, Abraão depositou sua fé e acrescentou a obediência. Abraão saiu sem saber para onde ia. Desse modo, "o que se espera" (Hb.11.1) vem. "O que há de vir virá e não tardará." (Hb.10.37). Se, por outro lado, formos incrédulos e desobedecermos à palavra, estaremos também juntando elementos que trarão o castigo, que também é um cumprimento da palavra de Deus. Contudo, sempre há um tempo para o arrependimento e a retomada do rumo certo. Para ilustrar o conceito dos fundamentos, construímos o quadro a seguir: O que você espera... virá??? O que você não vê... existe?? Sua fé tem base na palavra de Deus ou base na imaginação humana? Tem base na vontade de Deus ou na vontade humana? Seu fundamento é rocha ou areia? Jesus comparou sua palavra à rocha (Mt.7.24). A obediência, que pressupõe fé, seria a construção sobre a palavra. A desobediência também seria um tipo de construção, destinada a ruir sobre o seu construtor. A palavra é verdadeira, mas sem fé ou sem obediência não produz o efeito desejado (Hb.3,18,19; 4.1,2,11). Aqui temos um lado positivo e um lado negativo. No esquema abaixo, temos o vazio de uma falsa fé ou uma falsa palavra. Poderíamos desenhar um esquema semelhante a este em representação de questões legítimas de execução da vontade humana no mundo natural. Nesse caso não incluiríamos o diabo. O homem pode ter seus desejos, fazer seus planos, empenhar sua palavra, promover suas ações e fazer com que o que se espera venha a se concretizar. Contudo, isso não funciona do mesmo modo no mundo espiritual, a não ser que a vontade de Deus seja a base (I Jo.5.14-15). Podemos aplicar fé sobre tudo que pedimos a Deus? Apenas quando o nosso pedido estiver coerente com a sua palavra. Algumas vezes pedimos algo que não está contra a Bíblia, mas pode estar contra o plano específico de Deus para cada um de nós. Por exemplo, se alguém pede que Deus lhe dê riqueza, isso não está contra a Bíblia. Por outro lado, o Senhor nunca prometeu que todos os seus filhos seriam ricos materialmente. Se alguém pede, deve fazê-lo com fé. Porém, se tal pessoa não tiver recebido uma palavra específica de Deus, então sua fé pode ser como uma parede construída sobre a areia. Veja como foi diferente o caso de Salomão. Deus lhe disse: "Pede-me o que quiseres." Então, se ele tivesse pedido riqueza, sua fé estaria totalmente fundamentada. Fez melhor pedindo sabedoria. É o que precisamos para fazermos os próximos pedidos. Às vezes pensamos que estamos fundamentados na palavra quando, na realidade, trata-se de um falso entendimento da mesma. Por exemplo, em Atos 16.31 Paulo disse: "Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa." Muitos usam esse versículo para esperar ou "cobrar" de Deus a salvação da família. Contudo, tal palavra foi dirigida especificamente ao carcereiro de Filipos e não se trata de uma doutrina, a qual possa ser aplicada genericamente. Um entendimento errado conduzirá à frustração. Toda a minha família pode se converter ao Senhor, mas isso não tem nada a ver com Atos 16.31, pois aquele texto não traz uma promessa para nós. O própria Paulo escreveu aos Coríntios: "Como sabes tu, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, como sabes tu, ó marido, se salvarás tua mulher?" (I Cor.7.16). No caso do carcereiro, creio que Paulo falou por uma revelação específica destinada àquela família. O mesmo Deus pode revelar hoje. Só não podemos fazer uma regra a esse respeito. Quando Pedro andou sobre as águas, a palavra de Jesus foi dirigida especificamente a ele. Os outros discípulos não poderiam descer do barco. Nós também não estamos autorizados a fazer viagens a pé pelo oceano. Muitos citam Mateus 6.33 da seguinte forma: "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e as outras coisas vos serão acrescentadas." Desse modo, poderíamos esperar de Deus tudo o que pudéssemos pedir e imaginar. Essa distorção às vezes acontece quando se fazem músicas com os versículos. Para encaixar na melodia, o versículo é mudado. Então as pessoas aprendem dessa forma. Contudo, a Bíblia diz: "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas." O significado é bem mais restrito do que normalmente se diz. "Estas coisas" são as que Jesus mencionou no versículo 25: comida, bebida e vestuário. É verdade que Deus pode nos dar infinitamente mais. Contudo, o versículo não está prometendo isso. Não podemos ver ali casas luxuosas, carros, navios, empresas, etc. Seria muita criatividade da nossa parte. A fé precisa estar fundamentada na palavra. Precisamos, portanto, entender a palavra (Dn.10.1) e saber a quem ela foi dirigida. Observe que, em Hebreus, a "palavra", ou "promessa", ocupam lugar de destaque. A "fé" e a "esperança" do mesmo modo. A "incredulidade" é condenada. Nesse caso, a fé na promessa é substituída pela fé no castigo, a qual é chamada de "expectação terrível" (Hb.10.27). Vejamos as ocorrências dessas palavras e outras derivadas no texto: Palavra(s) - Hb.1.3; 2.2; 4.2,12; 5.13; 6.5; 7.28; 10.28; 11.3; 12.19,27; 13.7,22. Temos nessas passagens, quase sempre, a palavra de Deus. Aparecem também as palavras dos anjos, das testemunhas e do próprio autor da carta. Promessa(s) - Hb.4.1; 6.12,13,15,17; 7.6; 8.6; 9.15; 10.23,36; 11.9,13,17,33,39. Prometido - Hb.11.11; 12.26. Fé - Hb.4.2-3; 6.1,12; 10.22,38; 11.1,3,4-9,11,13,17,20-25,27,29-31,33,39; 12.2; 13.7. Creia - Hb.11.6. Esperança - Hb.3.6; 6.11,18; 7.19; 10.23. Esperando - Hb.6.15 Esperam - Hb.9.28; 11.1. Esperando - Hb.10.13. Esperava - Hb.11.10. Expectação - Hb.10.27. Incredulidade - Hb.3.12,19 Obediência - Hb.5.8. Desobediência e desobedientes - Hb.2.2; 3.18; 4.6,11; 11.31. Para os irmãos do primeiro século, a palavra escrita de Deus era apenas o Velho Testamento. A carta aos hebreus está bem fundamentada nessa porção das Escrituras. Afinal, não pretende negar o Velho Testamento, e sim mostrar o seu cumprimento em Cristo e no evangelho. CITAÇÕES DO V.T. NA EPÍSTOLA AOS HEBREUS Hebreus Velho Testamento 1.5 a Salmo 2.7 1.5 b I Samuel 7.14; I Crônicas 17.13 1.6 ? 1.7 Salmo 104.4 1.8-9 Salmo 45.6-7 1.10-13 Salmo 102.25-27 2.6-8 Salmo 8.4-6 2.12 Salmo 22.22 2.13 Isaías 8.17-18 3.7-11 Salmo 95.7-11 3.15 Salmo 95.7-8 4.3 Salmo 95.11 4.4 Gênesis 2.2 4.5 Salmo 95.11 4.7 Salmo 95.7-8 5.5 Salmo 2.7 5.6 Salmo 110.4 6.14 Gênesis 22.16-17 7.17 Salmo 110.4 7.21 Salmo 110.4 8.8-12 Jeremias 31.31-34 10.5-9 Salmo 40.6-8 10.16-17 Jeremias 31.33-34 10.30 Deuteronômio 32.35 10.37-38 Habacuque 2.3-4 11.4-37 Diversos episódios do VT 12.5-6 Provérbios 3.11-12 12.20 Êxodo 19.12-13 12.26 Ageu 2.6 13.5 Deut.31.6-8; Josué 1.5 13.6 Salmo 118.6 É digna de destaque a leitura messiânica que o autor faz dos textos citados. Temos, portanto, sólida base, para ver Cristo no Velho Testamento. É bastante forte a expressão do autor ao escrever: "Assim, pois, como diz o Espírito Santo." (3.7-11). As palavras seguintes são do Salmo 95, escrito por Davi. Notamos então que o autor reconhecia e declarava claramente que o salmo foi inspirado pelo Espírito Santo, ou podemos até dizer, "ditado" por ele. Tal reconhecimento é óbvio, mas é bom sabermos que o texto está mostrando isso, de modo que temos uma prova inequívoca de tal afirmação. EXORTAÇÕES O autor da epístola mostra o problema dos Hebreus e a solução necessária. Se conhecemos a doença e o remédio, o que nos resta? O tratamento. Da mesma forma, o escritor apresenta diversas exortações aos seus leitores. Não basta saber. É preciso fazer algumas coisas, enquanto outras são evitadas. As exortações são expressões imperativas que pretendem induzir à ação, ao movimento, à iniciativa. Existem atitudes a serem tomadas e acões a serem executadas em relação ao passado e ao futuro. O passado precisa ser abandonado. O futuro precisa ser focalizado, crido e realizado. Se alguém se encontra à beira de um abismo, diversas orientações podem ser dadas. Poderíamos dizer: "Não se mova! Acalme-se! Vire-se lentamente! Dê um passo! Agora ande mais rápido! Corra!" A primeira preocupação é evitar o pior, evitar a queda. Depois procuramos mudar a situação, eliminar o risco, colocando a pessoa a salvo. Do mesmo modo, a epístola contém exortações que podem ser agrupadas da seguinte forma: Para evitar o pior Para deixar o passado Para conquistar o presente /futuro Não abandone - Hb.10.25 Deixemos - Hb.12.1 Esforcemo-nos por entrar - Hb.4.11 Não se endureça - Hb.3.8 Saiamos - Hb.13.13 Cheguemo-nos - Hb.4.16 Temamos - Hb.4.1 Tendo intrepidez para entrar - Hb.10.19 Aproximemo-nos - Hb.10.22 Guardemos - Hb.10.23 Consideremo-nos - Hb.10.24 Corramos - Hb.12.1 Prossigamos - Hb.6.1 Sirvamos - Hb.12.28 Ofereçamos - Hb.13.15 Conservemos - Hb.4.14 Retenhamos - Hb.12.28 Apeguemos - Hb.2.1 Seja qual for a sua situação, "não abandone a congregação", "nem endureça o coração". Pior do que cair é desistir de caminhar. Não fique indiferente, como se nada estivesse acontecendo. Pelo contrário, reconheça sua posição de risco e "tema" pelo mal que pode vir. Até agora, estamos tratando com atitudes. Observadas tais admoestações, outras atitudes devem ser tomadas. Existe um passado a ser deixado. O pecado e o embaraço precisam ser abandonados a fim de que, livres de todo peso, possamos avançar na direção que o Senhor nos apresenta. Os hebreus precisavam sair de uma situação indesejável e entrar na nova realidade proposta. Os hebreus estavam um tanto quanto deslocados em relação ao propósito de Deus. Por isso são convidados a entrar. Estavam distantes. São convidados a se aproximar do trono da graça. Não podemos seguir a Cristo de longe. Estavam lentos (5.11-12) em sua jornada espiritual. O autor os convida a "correr" (12.1). O plano de Deus é urgente. O Senhor não está limitado pelo tempo, mas nós estamos e, por isso, não podemos demorar. O verbo "cheguemo-nos" encontra-se na voz reflexiva. Indica um tipo de ação em que nós somos, ao mesmo tempo, sujeito e objeto. É uma ação que o indivíduo executa sobre si mesmo. Isso significa algo pessoal e intransferível, como acontece com muitas atitudes humanas diante de Deus. Nosso posicionamento espiritual não pode ser decidido ou resolvido por outra pessoa. Ninguém vai nos aproximar de Deus. O que ele decidiu fazer por nós nesse sentido, ele já fez. Jesus já veio e já subiu "abrindo um novo e vivo caminho" (Hb.10.20). O caminho está aberto. Entrar, caminhar, correr, aproximar, são ações que dependem de cada um. A observação dos verbos mencionados, seu tempo, modo e pessoa, muito nos ensina. A maioria dos verbos se encontra conjugada na primeira pessoa do plural. Isso mostra que o autor se inclui em quase tudo o que diz, em quase todas as propostas que faz. Temos aí uma nota de humildade. Ele não apenas aponta o caminho e o trabalho, mas se coloca em posição de também fazer tudo o que está sendo comandado. É uma atitude desejável para os que pregam, ensinam ou lideram. Os verbos "retenhamos", "apeguemos", "guardemos" e "conservemos" nos mostram claramente que algo podia ser perdido pelos hebreus. O risco da apostasia está evidente em todas essas expressões.